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Não se poderia realizar uma exposição tão abranjente como esta, de artistas de Niterói, sem que fizéssemos uma homenagem a Anna Letícia. A partir de 1977, quando é fundada a Oficina de Gravura do Ingá, Anna Letícia torna-se profundamente ligada à vida artística e cultural da cidade, dedicando, generosamente, parte significativa de sua vida profissional ao ensino da gravura, formando gerações de artistas gravadores, e levando a Oficina do Ingá a ser reconhecida como um centro de referência nacional da gravura. Desde Carlos Oswald, a gravura no Brasil é praticada por artistas dotados de personalidades ensimesmadas, noturnas, interiorizadas, possuidoras de um olhar introspectivo, qualidades decorrentes de seu ofício. O ato de gravar está implicitamente ligado a este caráter íntimo, a um universo silencioso e solitário. Mas com Anna Letícia é diferente. Artista múltipla, além da gravura, dedica-se também à cenografia de teatro, tendo trabalhado com Maria Clara Machado. Carnavalesca, desenvolveu projetos para a Escola de Samba União de Jacarepaguá , no enredo em homenagem a Mestre Valentim. Anna Letícia, como artista e mulher, corajosamente envolveu-se com as reivindicações da categoria, integrando comissões e associações de classe. Historicamente tem participado das lutas políticas quando mais se fazem necessárias, nunca fugindo de suas responsabilidades de cidadã-artista. Discípula de Iberê Camargo, do mestre alemão Friedlaender e de Oswaldo Goeldi, Anna Letícia constrói sua obra marcada por provocante personalidade. Primeiramente, numa fase plena de figuração, saindo de sua prensa bichos e pássaros, onde encontramos "seus cinzas e pretos excelentemente matizados", como escreveu Mário Pedrosa sobre esse período. Mais tarde, Anna Letícia dedica-se aos caracóis e, sob a influência da abstração, sua arte torna-se mais livre e fluida, sem contudo perder o diálogo com a natureza. Surgem inscrições de formas orgânicas, plenas de vitalidade e ritmos que nascem com o ácido a corroer as chapas. Hoje, quando a arte busca o novo pelo escândalo, quando a pesquisa formal é substituída pelo espetáculo, a contundência dramática e social pela simples atitude absurda, Anna Letícia continua a produzir sem trair sua vocação sincera de artista, fiel à gravura; sem trair a vida, fiel a si mesma. Claudio
Valério Teixeira |
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