Traduzir o meio ambiente em formas e cores é uma prática tão remota quanto
a própria cultura humana. Desde a vida em cavernas, um esforço dirigiu-se
tanto à sobrevivência mais imediata quanto a uma arte rupestre, dando vazão
aos temores e fantasias do homem. Lendas e histórias dos antigos inspirou,
depois, muitos artistas que conceberam raras paisagens de um mundo idealizado,
povoado de deuses pagãos e seres míticos. Preservadas da devastadora ação
do tempo, paisagens murais alusivas às viagens de Ulisses, por exemplo,
atravessaram os tempos medievais de misticismo cristão, quando a paisagem
tornou-se meramente uma referência genérica de lugar às cenas bíblicas,
em pinturas destinadas a evangelizar.
Não obstante,
um interesse inusitado pelo aspecto das coisas, por sua aparência física,
desenvolveu-se no chamado mundo moderno, cuja idade mais ou menos coincide
com a do nosso próprio país. Uma atenção cada vez maior à paisagem foi
brotando do trabalho de artistas interessados no ambiente em si, com suas
imperfeições e singularidades, independentemente da condição de mero suporte
cênico à narrativa de histórias e mitos concebidos pela imaginação humana.
Tudo isso confluiu para o naturalismo do século XIX, impulsionado pelo
avanço da ciência e por um certo desconforto que a vida urbana trazia
consigo, quando o campo tornou-se um refúgio e a natureza, ela própria,
um mito.
O paisagismo reativo ao mundo urbano capitalista manifestou-se também
entre nós, ao final do século XIX, e Niterói teve nele um papel muito
importante, revolucionário mesmo. Abrigando o grupo de paisagistas conhecido
como Grupo Grimm, o bairro da Boa Viagem e redondezas de Niterói viu nascer
das cores de seus pincéis as primeiras paisagens naturalistas brasileiras,
numa arte que reverencia, acima de tudo, o mundo físico, visível: o mar,
o areal, a restinga, as montanhas, a mata, a luz. Desde então Niterói
tem sido generosa para com a arte brasileira: gerações de paisagistas
se sucedem ao longo de todo o século XX, numa vitalidade que parece nunca
se esgotar.
O repertório de nossos artistas ampliou-se e diversificou-se, incorporando,
em suas composições, barcos de pesca, cais, estaleiros, vistas de igrejas
e o patrimônio arquitetônico, inclusive o moderno. Surgiram novos recortes
e a consciência ecológica engendrou também novas sensibilidades, produzindo
novos olhares. Numa atividade que reúne amor à natureza, consciência histórica
e pesquisa de técnicas e materiais artísticos, novas tendências afirmam-se
aqui e ali entre nossos artistas paisagistas, revelando inclusive a percepção
crítica da vida urbana, hoje tão complexa, e até mesmo um certo sarcasmo
tipicamente contemporâneo. O termo paisagem alargou-se - arte de paisagem
refere-se agora à paisagem preservada, à paisagem urbana, à paisagem noturna,
à paisagem social etc. Enfim, tudo é paisagem, e tudo atrai o olhar que
observa, sente e dá forma e cor ao que se passa, no mundo real ou inventado
de cada artista. Niterói permanece sendo uma cidade de paisagistas. O
tempo segue o seu curso e, na cidade, constatamos a "persistência da paisagem".
Milton
Eulálio e Valéria Salgueiro
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