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As mutações na natureza são manifestações visíveis de uma vitalidade profunda, que resultam em uma infinita diversidade. Mutação é pujança de vida para nossos olhos. A pintura também apresenta este caráter vital no decorrer da sua história. Suas mudanças não são apenas testemunhas das constantes transformações do nosso mundo como são também elementos constitutivos dessas transformações. No século XX, ao conquistar sua autonomia e especificidade enquanto linguagem, a pintura apresentou-se de forma radicalmente nova e diversificada. Rompendo com a mimesis e com o espaço perspectivado do classicismo, ela construiu seu próprio território. Nele a cor, tradicionalmente reduzida ao estatuto da coisa designada, alçou vôo para finalmente se impor como potência, ventre de imagem. Mas ao quebrar as molduras do passado e ao dar asas às cores, a arte moderna também operou dialeticamente restituindo-lhe sua substância. Na modernidade a matéria prima da cor jorra da mão do pintor ao encontro do suporte agora entendido não mais como campo imaginário mas como "concreção". Com isso o suporte tradicional da pintura adquiriu novos formatos, maior diversidade, chegando mesmo a incorporar colagens e inserções. A nova pintura quis assim estreitar seu diálogo com a vida em suas várias instâncias, dialetizando imanência e transcendência, condição do exercício da liberdade. Liberdade distante das cercas impostas por preceitos rígidos e estáveis, liberdade essa agora devolvida ao fruidor entendido como um criador de sentidos. Mutações nas modalidades do facto pictórico, na imagética, na ênfase dada aos significantes, na qualidade do suporte, na relação da pintura com seu fruidor, mas mutação também nos últimos anos, no diálogo da pintura com outras linguagens e meios artísticos.

Nesta mostra podemos constatar que tais mutações universais, não somente ecoaram como germinaram na arte feita aqui em Niterói, incorporando nossas particularidades e refletindo uma dinâmica própria. Neste segmento, Mutações pictóricas, constatamos a passagem para a abstração, a emancipação da cor, as novas qualidades substanciais da pintura, mudança na qualidade e no formato do suporte. Ora apontando para a pintura objeto, aproximando-se da escultura, ora revelando a poética do seu processo e de sua instrumentação. Tais mutações redimensionam nosso conceito de pintura, ampliando seu campo de investigação e fruição, e suscitam um alargamento da nossa sensibilidade com o mundo contemporâneo. A pintura como produto social busca estabelecer o diálogo com a vida, um diálogo in-tenso e pro-fundo. Ela é signo do nosso devir, o poço onde se reflete nossa humanidade em constante mutação.

Pierre Crapez