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Coisas
realmente surpreendentes têm recebido a denominação
de escultura: corredores estreitos com monitores de TV ao fundo;
grandes fotografias documentando caminhadas campestres; espelhos
dispostos em ângulos inusitados em quartos comuns; linhas
provisórias traçadas no deserto. Parece que nenhuma
destas tentativas, bastante heterogêneas, poderia reivindicar
o direito de explicar a categoria escultura. Isto é, a não
ser que o conceito desta categoria possa se tornar infinitamente
maleável.
Rosalind Krauss
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Em 1984,
Rosalind Krauss levantou esta questão no seu texto "Escultura
no campo ampliado". Dezoito anos depois, ao observarmos as obras
tridimensionais reunidas para um evento, que em parte, pretende traçar
um perfil para a produção artística de Niterói,
constatamos a resistência e a atualidade de tal enunciado.
Como podemos
perceber, ao caminharmos pelo espaço destinado a este eixo curatorial,
não encontramos mais, em grande quantidade, as ditas "esculturas".
Poucos artistas ainda insistem bravamente neste meio, como via de expressão
para a sua poética. Configurações espaciais, que
convidam, relacionam e inscrevem o corpo do fruidor, rompem com a observação
passiva do visitante, exigindo dela a sua efetiva participação.
A interação entre o corpo e a obra abre espaço para
novas imbricações que tensionam o universo das sensações
com o da cultura, propiciando, deste modo, o surgimento de noções
renovadas, que se fundamentam na experiência.
A partir
da observação desta cartografia explicitada pelo referido
evento, por amostragem, delineamos um traçado que nos permite,
em tese, algumas considerações: poderíamos afirmar
que a questão da escultura, vem, ultimamente, deslocando seu foco
da natureza estrutural e matérica do espaço, para incluir
no seu bojo, inquietações advindas da expansão da
experiência da arte que ultrapassem os limites da categoria e da
internalidade da escultura como linguagem.
Os conceitos
que dizem respeito "esclusivamente" à linguagem escultórica
não são mais suficientes, como fim para a mesma. Nesta recente
contextualização do espaço, a carga semântica
dos materiais empregados na construção do poema visual,
o potencial da forma enquanto elemento significante, o valor biográfico
e afetivo em se tratando de objeto aplicado, assim como a atitude do artista
presente no deslocamento de materiais da banalidade do cotidiano para
a esfera da arte, tratam de reconectar o laço rompido com o mundo,
durante a dominação dos paradigmas modernizantes. Atualmente
as imagens tridimensionais encontram-se em uma expansiva contaminação
com o mundo. Neste novo lugar, a vida e a obra, agora se inscrevem.
João Wesley
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