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Quando, em 1991, o amigo João Sattamini me procurou para saber se Niterói teria interesse em abrigar a sua extraordinária coleção de Arte Contemporânea brasileira, imediatamente surgiu-nos a idéia de um museu. E, pensando grande, pensamos logo em Oscar Niemeyer.

Darcy Ribeiro diz que daqui a trezentos anos ninguém se lembra de nós, mas alguém estará falando da obra e do gênio deste arquiteto de fala mansa, artista sensível, homem revolucionário.

Na mesma semana, Niemeyer saía da Prefeitura ao meu lado, juntamente com João Sattamini, Ítalo Campofiorito e João Sampaio. Primeira parada: o mirante da Boa Viagem. Dali, se descortina a vista que fez parte da parte mais importante da história da arte brasileira do século XIX. Lentamente o Dr. Oscar ficou uns dez ou quinze minutos andando de um lado para o outro. Fascinado pelo terreno e pela paisagem, às vezes sussurrava para si mesmo: "Que beleza..." Todos nós, devida e respeitosamente, calados, sabíamos que estávamos presenciando o início de uma criação importante.

Niemeyer disse então: "É aqui". Com uma total falta de sensibilidade, argumentei: "O senhor não gostaria de ver outros lugares que selecionamos?"

"Não precisa. É aqui. E já tenho a forma, algo como uma flor ou um pássaro..."

O projeto estava pronto. Fomos em seguida almoçar no restaurante Sacada, em Charitas.

Pedi ao garçom umas folhas de papel. Queria ver o esboço da idéia. Rapidamente, ele vinha trazendo folhas pequenas, dessas de recado, quando foi interceptado por outro garçom, ouvinte atento da nossa conversa, que o censurou baixinho: "Rapaz, traz uma folha maior... Este homem fez Brasília".

Niemeyer não ouviu o diálogo mas, em questão de segundos, tinha à sua frente um papel ofício imaculadamente branco, onde o pássaro voou pela primeira vez. Ou a flor brotou, não sei bem.

Voei junto. Brotei junto, também não sei direito.

Todo projeto como este tem que ser polêmico, pela grandeza, generosidade e coragem que traz em si. É bom que seja assim, para que nossos filhos, netos e bisnetos falem com orgulho do Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

E de nós.

Obrigado, meu velho comunista.

Jorge Roberto Silveira
Prefeito de Niterói