A FORMAÇÃO DA MÚSICA POPULAR CARIOCA

 

MODINHA E TEATRO DE REVISTA

 

    Os cantadores de modinha,(10) termo genérico e depreciativo para as modas (canções) da época, verdadeiros bardos trovadores, saíam pelas ruas cantando suas músicas plangentes e emotivas serestas ao violão. Eram músicos populares que com suas células melódicas, formulário rítmico e o emprego de certos instrumentos iam adaptando-se a uma sensibilidade geral do “ser brasileiro”. Segundo o pesquisador Mozart Araújo “esses elementos de nacionalização da música (contidos nas serestas) formam como que um estoque de que se utilizam voluntária e conscientemente os compositores brasileiros, para fugirem à cópia servil da música importada.”(11) Os compositores brasileiros a que Mozart se refere são os da virada do século – Joaquim Callado, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense.

 

Catulo da Paixão Cearense    Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) foi na segunda metade do século XIX um grande cantador de modinhas. Freqüentador assíduo dos melhores saraus da cidade, nas casas de Melo de Morais Filho e do Senador Hermenegildo de Morais, era admirado pelos maiores intelectuais da época. Catulo inaugurou uma tradição de letrista de choro. Pôs letra em música de Callado, “A Flor Amorosa” , em composições de Anacleto, como “Yara” ou “Rasga Coração” e compôs uma toada, junto com João Pernambuco, que virou o segundo hino nacional: “Luar do Sertão”.

 

    Com o passar dos anos o seresteiro com seu violão ou acompanhado por instrumentistas populares, os chorões, foram tornando-se coisa do passado. O aparecimento da luz elétrica e do asfalto advindos com a modernização da cidade pôs de lado aqueles personagens românticos, audazes e bem “brasileiros”.

 

Grupo de chorões em uma festa junina no início do século XX, no Rio de Janeiro.    O mais importante centro de divulgação da música popular carioca da virada do século era o teatro de revista, ou revista de ano, palco canalizador das novas composições populares e de lançamento das músicas carnavalescas – só perdendo este status com o advento do disco e do rádio.

 

    A revista de ano tinha a intenção de fazer um balanço de todos os acontecimentos políticos, sociais, econômicos e culturais ocorridos no decorrer do ano. Seus autores apresentavam ao público, de forma crítica e bem humorada, os fatos mais recentes da cidade. A crítica da cultura Flora Süssekind, ao debruçar-se sobre o estudo das revistas, levanta a hipótese de que elas serviam como uma espécie de guia para uma população atordoada com as vertiginosas mudanças de seu tempo (industrialização, reformas urbanas, fotografia, cinematógrafo, telefone, automóvel). As revistas serviriam não só de “mapas teatrais”, atualizando os acontecimentos, como levariam o público a refletir sobre eles.(12)

 

    Foi no teatro de revista que os gêneros estrangeiro mais em voga na cidade, valsas, mazurca e sobretudo a polca, após ganharem uma tessitura mais carioca, com o contato com o lundu,(13) foram transformando-se em novos gêneros como o “choro”, música instrumental, e o maxixe, primeiro uma dança, e depois um gênero musical.

 

    O maxixe foi a grande febre do teatro musicado. Seu nome está associado a uma planta rasteira muito comum nas casas simples da Cidade Nova. Nasceu como uma dança cheia de movimentos requebrados e violentos, onde os instrumentistas populares, que acompanhavam os dançarinos e as suas coreografias exageradas, iniciaram uma adequação de suas execuções ao novo bailado, impulsionando com essa atitude o surgimento do novo gênero musical. José Ramos Tinhorão afirma que é da “descida das polcas dos pianos para a música dos choros, à base de flauta, violão e oficlide, que ia nascer a novidade do maxixe.”(14) O sucesso do maxixe ultrapassou os limites do teatro de revista. Era cantado e dançado nas festas populares e no carnaval carioca.

 

    Ao apagar das luzes do século XIX, em 1899, uma das sistematizadoras do maxixe no teatro de revista, a maestrina Chiquinha, moradora do bairro do Andaraí, seria a precursora da primeira canção carnavalesca brasileira, compondo para o bloco Rosa de Ouro o Ó abre alas:

Ó abre alas
Que eu quero passar (bis)
Eu sou da lira
Não posso negar (bis)

Ó abre alas
Que eu quero passar (bis)
Rosa de Ouro
É que vai ganhar (bis)

 

    Cantada em todos os cantos da cidade e relembrada até hoje em alguns bailes carnavalescos e na memória de quem aprecia nossa tradição musical, a marchinha de Chiquinha inaugura uma linhagem de compositores carnavalescos que durante décadas usufruíram do gosto da população carioca pelo gênero, legando-nos nomes do quilate de João de Barro, Lamartine Babo, Haroldo Lobo, Alberto Ribeiro, para ficarmos só em alguns.

 

Grupo de chorões em uma festa junina no início do século XX, no Rio de Janeiro.    O Rio de Janeiro tornou-se no decorrer do século XX o espaço cultural por excelência da música popular brasileira. O surgimento do samba na cidade e a sua elevação a principal elemento de nossa cultura, foi resultado da experiência musical que a cidade adquiriu no século XIX, onde a consolidação de espaços de sociabilidade e a constante interlocução entre as classes, etnias e credos, fez do espaço urbano carioca uma síntese da diversidade cultural do país.

André Diniz

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(Equipe Niterói@rtes)