Um grande passo rumo a uma maior divulgação
da música do povo vinha ocorrendo desde o surgimento
das casas editoriais. As casas de edição de
partituras surgiram após a revogação
do decreto de D. Maria, assinado por D. João VI,
em 1808, que proibia o funcionamento de gráficas
no Brasil. Com isso, vender partituras no penúltimo
quartel do dezenove tornou-se investimento lucrativo. As
famílias medianas e as festas da Corte Imperial eram
um mercado consumidor garantido.
O primeiro impressor-editor a exercer uma atividade
mais regular no Brasil foi Pierre Laforge. Instalou-se na
rua do Ouvidor, número 149 em 1834. Depois foi para
a rua da Cadeia, número 89, permanecendo aí
até 1851. Imprimiu grandes compositores da época,
incluindo em seu acervo composições de modinhas,
lundus,
árias de ópera.
As edições de partituras dos músicos
populares tinham destino certo no último quartel
do dezenove: o crescente número de pianos na cidade.
Depois da Abertura dos Portos o piano era cada vez mais
freqüente nos ambientes culturais da sociedade carioca
e até em recantos mais longínquos do território
brasileiro.
Antes o piano, como toda sorte de produtos ingleses
que inundaram nosso mercado com a chegada da Corte portuguesa,
era muito caro e ficava restrito apenas ao uso de famílias
abastadas. Com uma demanda maior pelo instrumento, devido
à multiplicação dos salões,
ampliou-se no mercado a venda de pianos usados, facilitando
a sua aquisição por famílias de classe
média. Ter um piano significava status, símbolo
de ascensão social.
O piano tornou-se obrigatório nos saraus dos
solares das cidades, nas casas grandes do campo, assim como
nos aniversários, casamentos e batizados das classes
populares; as casas de venda de partituras e de instrumentos
musicais, as salas de espera dos cinemas, as orquestras
do teatro
de revista, nas sedes dos ranchos e das sociedades carnavalescas,
enfim, o Rio era mesmo, como afirmou o poeta Araújo
Porto Alegre: “a cidade dos pianos.”
O aumento do número de pianos significou a
incorporação deste instrumento ao lado da
flauta, cavaquinho e violões nos conjuntos de chorões.
Abriu, também, a possibilidade para o surgimento
do músico conhecido depreciativamente como pianeiro,
ou seja, aquele instrumentista com pouca teoria musical
mas com muito balanço dos ritmos das ruas. O maestro
Brasílio Itiberê chegou a apontar como características
dos pianeiros “o dengo, a macieza, o espírito
frajola, o humor e a graça ágil.”