O Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX,
capital da Corte, configurou-se como um verdadeiro Império
da boa música(1).
A música produzida pelos diversos segmentos das camadas
populares – lundus,
modinhas,
“choros”
e maxixes
– e difundidas pelas bandas de música, pelos
grupos de choro,
pelos seresteiros e pelo teatro
de revista, criou um ambiente musical extremamente rico
e diversificado na cidade. Era a música urbana que
se consolidava, interligando as culturas, impondo a heterogeneidade
e dando os primeiros passos de nossa musicalidade.
O primeiro grupo musical que temos notícia
era uma espécie de “banda primitiva”,
conhecido como “barbeiros”, que existiam desde
o século XVIII, sendo formado, basicamente, por escravos
obrigados por seus senhores a aprenderem novos ofícios.
Recebiam essa denominação porque a
profissão de barbeiro era a única a deixar
tempo vago para a aprendizagem de outros trabalhos. Eles
se apresentavam em festas religiosas, profanas e até
oficiais; tocavam dobrados, fandangos e quadrilhas. O pintor
Debret em seu livro “Viagem pitoresca e histórica
ao Brasil” dá um retrato dos barbeiros
do período:
No terceiro quartel do século XIX, a música
de barbeiro foi perdendo espaço para outras formas
de representação musical. Seu “ritmo
de senzala”(3)
e seu espírito foram canalizados para os grupos de
choro,
mas nas foi nas bandas de música que detectamos mais
claramente a sua continuidade.
Com o surgimento das bandas de música da Guarda
Nacional, em 1831, teve início o desenvolvimento
das bandas militares e civis nos grandes centros urbanos
do Império. As apresentações nos coretos
e nas festas cívicas faziam das bandas militares
uma referência obrigatória de diversão
na cidade. Logo surgiram bandas civis imitando sua formação,
tocando músicas para bailes e apresentando-se nos
coretos das praças.
Em 1896 foi criada a banda mais famosa do Rio de
Janeiro: a do Corpo de Bombeiros. O maestro Anacleto
de Medeiros (1866-1907), seu fundador, fez desse agrupamento
musical um dos veículos principais de divulgação
da música popular. Chorão e compositor, levou
para o repertório das bandas as composições
mais em voga do choro
e também convocou para sua agremiação
vários músicos que tocavam nos diversos grupos
de instrumentistas da cidade. Com o seu tino musical apurado
fez com que a Banda do Corpo de Bombeiros se destacasse
das demais pela melhor afinação e arranjos
mais bem-acabados.
Com a criação da Banda do Corpo de
Bombeiros e a diversidade do número de bandas musicais,
o Rio de Janeiro se consolida neste momento como centro
formador de músicos profissionais. Músicos
que não raro tinham nas bandas a única maneira
de fugir da miséria em que se encontravam. Estamos
falando de uma época em que ser instrumentista de
banda representava comida e dignidade.(4)
Os grupos de instrumentistas populares, conhecidos
como chorões, surgiram em torno de 1870. O “espírito
de senzala” desses músicos, que faziam a partir
da fusão do lundu
com gêneros estrangeiros europeus, sobretudo a polca,(5)
suas interpretações musicais ao sabor da cultura
afro-carioca, era o tempero para suas audições
nos arranca-rabos e cortiços das camadas populares,
nos bailes da classe média, batizados, aniversários,
casamentos ou mesmo nas apresentações dos
salões da elite da corte. (6)
O compositor mais localizável no tempo como
precursor dos grupos de choro
é Joaquim
Antônio da Silva Callado (1848-1880). É
considerado o pai dos chorões por ter inserido sua
flauta de ébano ao lado de violões e cavaquinho
e ter organizado o grupo de músicos populares mais
famoso da época - o Choro Carioca. Joaquim
Callado nos legou poucas músicas conhecidas,
onde podemos destacar as polcas “A
Flor Amorosa”, seu maior sucesso, “Cruzes,
minha prima” e “Querida
por todos”, esta última feita para
a maestrina Chiquinha
Gonzaga. Mestiço simpático, exímio
flautista, mulherengo, popular na cidade, o nosso chorão
era filho da primeira geração do choro,
que compreende as datas de 1870 até 1889. (7)
Ao seu lado estavam Viriato
Figueira, Virgílio Pinto, compositor e instrumentista,
Luizinho, o violinista Saturnino e tantos outros músicos.