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DESAFIO ENTRE GÊNIOS Professor de Harvard mostra diálogo estabelecido entre Matisse e Picasso
(Crítica extraída do jornal O GLOBO - 06 de janeiro de 2001)
"O Brasil é um país curioso. Sem maiores explicações, uma editora especializada em livros técnicos - Melhoramentos - resolve se aventurar no arriscado território da história da arte e publica o magnífico "Matisse e Picasso", de Yve-Alain Bois, recém lançado nos EUA e na Europa.
Francês, professor na Universidade de Harvard, Yve-Alain vem se debruçando sobre história da arte moderna desde o começo dos anos 70. Realizou curadorias de peso para o MOMA - como uma retrospectiva de Mondrian em 1994 - e escreve com assiduidade em revistas como Arrtforum e Art in America.
Uma pergunta que surge imediatamente para quem vê seu livro é: para quê mais um livro sobre dois artista já tão discutidos? Não seria este um tema já banalizado? O que percebemos, assim que começamos a lê-lo, é justamente o contrário: ainda falta muito para compreendermos o legado destes nomes da arte moderna.
O objetivo do autor é mostrar o quanto as trajetórias de Matisse e Picasso desenvolveram-se a partir de uma replicação constante de trabalhos. Que isso acontecia no começo não é nenhuma novidade: há quem fale que "Demoiselle d`Avignon", 1907, de Picasso, foi uma resposta a "Le bonheur de vivre", 1905/6, de Matisse, que, por sua vez, treplicaria, em 1911, com o radicalíssimo "L'atelier rouge". Mas este tipo de ação / reação aconteceria até o final, e muito nos anos 30 e 40, quando alguns precipitados achavam que o velho Matisse teria se tornado carta fora do baralho.
Para explicar o tipo de diálogo que se estabeleceu entre os dois artistas, Yve-Alain, a partir do historiador Hubert Damish, toma o jogo de xadrez como modelo. O importante era juntar a rivalidade competitiva e a temporalidade complexa, a sincronia e a diacromia. "Em qualquer momento de uma partida de xadrez, a distribuição das peças no tabuleiro pode ser considerada, indiferente, como o produto de uma história (a sucessão de jogadas que resultam nessa distribuição) ou como uma posição - ou seja, como um sistema - que contém todas as informações necessárias para que o jogador que tem a vez se decida, com total conhecimento de causa".
São muitas as referências que relatam a importância que um atribuía ao outro no desenvolvimento de suas respectivas obras. Vejamos primeiro Matisse: "Um dia, ao encontra Max Jacob nos bulevares, eu lhe disse disse: 'se não fizesse o que faço, queria pintar como Picasso'. 'Veja só', disse Max, 'que estranho! Picasso fez a mesma observação a seu respeito'". Já Picasso, sempre mais sintético, teria dito a Françoise Gilot: "levando tudo em consideração, só existe Matisse".
O importante na argumentação do livro é desfazer qualquer idéia simplória de influência. Para o autor, e isto é crucial para sua tese, os dois tinham certeza de que a presença do outro no "tabuleiro" era determinante para manterem-se ativos no processo histórico de arte moderna. Ambos, afinal, lutavam contra um mesmo adversário: a arte abstrata.
A incompreensão e a rejeição da abstração acompanhou-os desde sempre. Como observou Yve-Alain, "para eles, essa rejeição foi a permanente confirmação de que, embora com uma diferença de idade equivalente à meia geração, eles pertenciam a um mesmo mundo. Isso foi o que cimentou o sentimento que possuíam de estar cumprindo uma missão: reativar o passado e, em seguida, fornecer uma base para nossa experiência da modernidade".
Apesar deste adversário comum, o mais interessante não são as coincidências, mas as diferenças poéticas no desenvolvimento das respectivas obras. Segundo Yve-Alain, "Matisse precisava da presença plena do objeto; era a presença material que despertava nele a pulsão para pintar ou desenhar(...) Ele precisava pôr em ação todo o seu aparelho perceptivo para poder identificar-se com o motivo". Ao contrário de Picasso, que não se preocupava com a identificação mas com a interpretação da coisa pintada, pois "qualquer coisa que ele pintasse, precisava vê-la como uma coisa diferente. Esse processo de transcodificação é muito aparente em seus retratos".
A partir desta diferenças entre identificar-se com (Matisse) e ver como (Picasso) podemos olhar estas duas obras maiores do nosso século. Como disse o autor em uma entrevista, comentando uma afirmação de Gretrude Stein, "Picasso pintava um tomate como ninguém nunca vira; Matisse, por sua vez, pintava-o como nós o vemos, todavia, ele também nos faz sentir o cheiro do tomate".
Com 80 anos nas costas, já um grande "clássico" da pintura moderna, Matise escreve uma carta para o filho em que relata sua visita a uma exposição de Picaso: "fui até lá hoje de manhã, crayon em mão, estudar o que ele fez". Não é comum entre grandes artistas tamanha humildade. Matisse e Picasso mantiveram-se, em relação ao outro, sempre nesta posição de aprendiz. A série realizada pelo pintor espanhol - no ateliê La Californie - depois da morte de Matisse, é a certeza de um último lance desta partida e uma espécie de homenagem póstuma à realidade amorosa que havia entre os dois.
Muito mais poderia ser dito, mas como o espaço é restrito, uma última observação: quem quiser entender melhor as motivações deste dois gênios não deve deixar de ler este livro."
Luiz Camillo Osorio
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