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TRECHOS DO LIVRO "FLÁVIO DE CARVALHO"
de Luiz Camillo Osorio
POÉTICA EM TRÂNSITO:
"[...] A importância de Flávio de Carvalho para a história da arte brasileira, por mais pontual que seja, está relacionada à energia e inventividade que emanam de suas atitudes. Atitude essas que não se esterilizam em um culto bizarro da personalidade, mas que abrem todo um universo novo de experimentação artística, à margem das instituições e das práticas tradicionais. Portanto, devemos dizer que a medida de sua exemplaridade não nos chega atrelada aos resultados concretos da obra - o que também é o caso -, mas muito mais de uma potência criativa que é liberada por uma atuação arriscadamente plural. Por mais caótica que tenha sido essa energia, ela não deve ser desprezada; afinal, o seu poder de irradiação ainda não se esgotou. Essa possibilidade de pensar a atitude enquanto forma nos obriga a reavaliar, sem reducionismos, a própria noção de obra e de seus modos de disseminação dento de contextos culturais específicos.
Apesar do interesse contemporâneo pelo "artista experimental"- é claro que as performances e a irreverência de Flávio de Carvalho dão-lhe um acento particular - , deve ser acrescentado que as pinturas e os desenhos que produziu têm uma intensidade ainda pouco notada por nossos críticos e historiadores. Especialmente os desenhos, os quais revelaram uma ansiedade gráfica mais contundente e desenvolta. Observada em perspectiva história, sua pintura dos anos 30 e 40 é mais do que simplesmente simples e peculiar, pois mostra uma vontade de expressão, por meio de uma materialidade que é distinta, mais vigorosa e original do que o acanhamento formal de seus pares.
A concentração da figura humana e a ênfase no gesto cromático, no corpo expressivo da cor, vincula-o muito mais a tradição expressionista do que à hegemônica vertente cubista / abstrata, que iria desembocar no concretismo. Essas duas vertentes não devem ser excludentes; ao contrário, devem ser vistas como complementares. Nosso diálogo com o modernismo ganha mais oxigênio com esse quadro poético ampliado.
Quem entendeu bem a força e a singularidade da pintura de Flávio de Carvalho e soube perceber sua unidade como o resto da obra foi a artista Maria Leontina, em uma pequena passagem que mostra aguda sensibilidade: "No traço expressionista dinâmico e agressivo, nos retratos de pinceladas explosivas com cores vibrantes de dramática e profunda intenção psicológica, nas experiências e ensaios, Flávio de Carvalho sempre se auto-retratou: o artista raro e autêntico, o homem polido e irreverente, ser polêmico com aparência de Mefistófeles moderno." 3
Como dizíamos, para fazer justiça à obra de Flávio de Carvalho é importante reavaliar a dispersão poética e a inclinação pela contaminação dos meios expressivos. Sua obra deve ser vista como parte de um passado indeterminado, que vem ganhando, com o passar dos anos, uma atualidade renovada. Por mais isolada que fosse sua atuação, as pinturas, os desenhos, especialmente, o atrevimento experimental que caracterizam sua produção devem ser revistos no sentido de ampliar nossas leituras do modernismo.
Nascido no dia 10 de agosto de 1899, na cidade fluminense de Amparo de Barra Mansa, Flávio de Carvalho era filho de Raul de Rezende Carvalho e Ophélia Crissiuma de Carvalho. A filia rica pôde dar ao filho uma educação européia. Inicialmente em Paris depois na Inglaterra, sua educação foi a mais sólida possível para época. Formado em engenharia, retorna ao Brasil logo após a semana de 22.
Na Inglaterra , em paralelo aos estudos de engenharia na politécnica, Carvalho matriculou-se em cursos noturnos da King Edward VII School of Fine Arts. Seus primeiros desenho datam desse período: o traço já saía fluente e bem a moda da época, marcada pelo art nouveau.
Como observa Luiz Carlos Daher, "a vontade de forma do art nouveau, em muitos casos conhecidos, era animado por uma produção dionisíaca da vida, distinguindo-se nesse aspecto do simbolismo e do decadentismo, ambos tentativas literárias e soturnas de superação do academismo estéril."4 Essa adesão inexorável às potências da vida só iria se intensificar com o passar dos anos, não se restringindo, portanto, a um entusiasmo adolescente.
De passagem, é bom frisar que a intercessão entre arte e vida será uma marca constante na obra de Flávio de Carvalho. Por mais delicada e superficial que seja tal afirmação - ela corre sempre o risco de não significar absolutamente nada - , a impressão eu se tem é que o artista fez de sua vida e obra um único e mesmo experimento. No sue caso, creio eu a honestidade, a coerência e o pioneirismo que o cercam tornam a intercessão arte / vida extremamente significativa, progressista mesmo, vinculando-o a uma experiência típica das vanguardas históricas com o ideário de uma obra de arte total.
Depois do contato inicial com o art nouveau, sua produção artística logo irá se aproximar do expressionismo. Esta aproximação deve ser balizada pelas especificidades do meio cultural brasileiro. Como observou o historiador da arte Giulio Carlo Argam, "perante a realidade, o impressionismo manifesta uma atitude sensitiva e o expressionismo uma atitude volitiva, ,até mesmo agressiva [...] O expressionismo , apesar de se apresentar como antítese do impressionismo, o pressupõe. Tanto um como outro são movimentos realistas, que exigem o compromisso total do artista ante a realidade, ainda que o primeiro se resolva no plano do conhecimento e o segundo no plano da ação. Excluir-se assim a hipótese simbolista de uma realidade fora dos limites da experiência humana, transcedente".5
O expressionismo, portanto, é tomado como e um gesto de afirmação do artista diante da realidade e da possível transformação dessa realidade - tanto do ponto de vista social como do individual. No caso de Flávio de Carvalho, sem que isso implique qualquer tipo de alienação política, muito pelo contrário, a balança sempre pesou para o lado do indivíduo, da sua subjetividade e sua circunstâncias. Ema sua obra, seja pictórica ou a arquitetônica, os desenhos ou parte mais experimental, o enfoque é constantemente no indivíduo e em suas emoções originárias: o sentimento de medo, de dor, de prazer, de alegria e de angústia diante da vida e da morte.
O trato com o elemento mórbido, com a morte, não é encarado na sua obra como negação da vida, uma angústia imobilizadora e esterilizante, mas como algo que lhe imprime uma urgência existencial, uma vontade singular de testar limites e de pô-los em xeque.
É claro que a experimentação com a subjetividade - o seu contínuo desafio aos parâmetros que regem nossos modos de ser no mundo - impregnava a obra de Flávio de Carvalho, principalmente as sua Experiências,6 de alto teor político. Fosse discutindo a cidade, problematizando as práticas religiosas, ou mesmo refletindo sobre a moda masculina e o vestuário tropical, uma espécie de micro-política estava sendo posta à luz do dia.
Em nenhum momento de nosso modernismo esteve a natureza corporal da experiência estética e existencial tão em evidência. Sua ralação com a dança não é casual. "O bailado é expressão das mais antigas do fluxo de movimento e traz para a tona da consciência as formas mais antigas da exteriorização e do comportamento do homem".7 De certa maneira, toda a produção artística de Flávio de Carvalho, independente do meio expressivo, busca exteriorizar emoções primitivas essenciais que teriam sido reprimidas pelo processo civilizatório. A idéia, creio eu, não seria negar esse processo, mas rever suas premissas e alargar o seu alcance.[...]"
3. Essa passagem escrita por Maria Leontina foi encontrada em uma prateleira onde estavam pequenos desenhos, esboços e anotações, e incluída na exposição Milton da Costa e Maria Leontina em Diálogo, no CCBB, Rio de Janeiro, entre 15 de abril e 23 de maio de 1999.
4. L.C. Daher, Flávio de Carvalho e a volúpia da forma.
5. G.C. Argan, El arte moderno, Valência, Fernando Torres Editor, 1984.
6. Flávio de Carvalho chamava de "experiência" sua práticas interdisciplinares que não tinham vinculação com as categorias tradicionais da arte. Assim a Experiência nº 2 , 1931, será sua intervenção / provocação em uma procissão de Corpus Christi; a de número 3, 1956 será a criação de uma roupa masculina tropical bem pouco convencional - com direito a sai e tudo. Além disso, ela criará o Teatro da Experiência, em 1932, que seria um grande laboratório teatral. Experiência seria de Flávio de Carvalho a indicação de um território multidisciplinar e experimental.
7. F. Carvalho, "Dialética da moda - A moda e o novo homem: XXVI". Texto datilografado pertencente ao acervo do Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio - CEDAE-Unicamp, onde se encontram todos os manuscritos do autor sobre a "Dialética da moda", escritos em 1955-56.
( Página 10 à 13 )
"[...] A poética de Flávio de Carvalho, na sua dispersão e negatividade, centrava o foco no que ele denominava "pesquisa de alma". O interesse era buscar novas maneiras de pensar a subjetividade: o "eu" não como uma entidade autônoma, mas sim como algo "inventado" no debate com o outro, com a cultura e história. A arte seria um dos meios de experimentar novos horizontes tanto para o sujeito como para a realidade.
A utopia modernista de criar o "novo homem" não aparece em Flávio de Carvalho com o sinal "construtivista" dos russos ou da Bauhaus, que mantinham os termos de um projeto racionalista. Nesse caso, a ênfase recai sobre um tempo futuro, quando se concretizariam os ideais do presente. Nele, fazendo eco à desconstrução antiartística das vanguardas, o que prevalece é a afirmação de um processo artístico, a disseminação de uma potência criativa, que se realizaria integralmente no presente. O que lhe dava certamente um a nota original é que, paralelamente à irreverência vanguardista , temos um engenheiro, alguém que jamais abril mão de uma intervenção na realidade
Par muitos interprete da cultura contemporânea, o deslocamento temporal do futuro para o agora é uma marca distintiva da pós-modernidade. Não quero me estender no mérito dessa discussão. Todavia, parece-me precipitada a introdução desse pós, que mantém um ideário teleológico, progressista, típico da estética de ruptura do modernismo. A meu ver, o modernismo vivia esse tenção intrínseca entre o presente e o futuro, e, nessa perspectiva, não deve ser descartado tão facilmente. A própria poética de Flávio de Carvalho, fincada no modernismo, deve ser resgatada justamente para nos permitir pensar e reescrever os desafios de uma modernidade complexa e inacabada.
O que interessa propor, nesse atrito entre o futuro e presente, é uma outra tensão, também moderna, entre projeto e processo - usando termos mais heideggerianos, entre construir e habitar.13 Os primeiros termos dessas oposições (futuro, projeto e construção) estão ligadas a vanguardas positivistas, os construtivismos e a Bauhaus, e os segundos (presente, processo e habitação) às vanguardas negativas, especificam o dadaísmo e o surrealismo.
Essa seria a chave positiva da volúpia do negativo presente em Flávio de Carvalho: a idéia de habitação. Como ele mesmo enfatiza, "a cidade do homem nu é a habitação do pensamento". O artista antecipando-se ao engenheiro, vincula o construir ao habitar. A arte e a arquitetura devem, mais do que ser uma produção de objetos, pôr em xeque e buscar reinventar as formas de vida do homem civilizado. Para que cada trabalho ganhe força e especificidade, seria importante olhar este horizonte poético mais largo, a invenção da existência - do ser-no-mundo - , é sempre problematizada e tematizada por Flávio de Carvalho.
Por sinal, os seus textos não são explicações conceituais, não pretendem justificar uma produção artística paralela. Eles são parte dessa criação, e têm valor muito mais estético e artístico do que teórico. A palavra, a linha, a cor, o corpo, a roupa, a viagem, cada um desses elementos vai ganhando significação muito mais por contaminação do que por individuação. É uma obra eu privilegia o aberto em oposição ao fechado, o horizonte em oposição às fronteiras; uma poética em trânsito.
Podemos dizer que em Flávio de Carvalho a intenção, o ato, a obra e sua disseminação cultural devem ser tomados como um todo. Mas o que viria a ser a habitação na poética carvalhiana? A disseminação da questão artística através do campo ampliado da experiência humana, ou melhor, a arte como um fazer, que é também uma interrogação sobre as possibilidade de ser do homem do mundo. Habitar é ter proximidade mesmo na distância, é querer que a arte nos ponha em contato com o outro que trazemos em nós, ao mesmo tempo que cria relações com a alteridade que está no mundo. A idéia de habitação - presente nas poéticas antiartísticas do entre-guerras, na obra de Kurt Schwitters, por exemplo - vem atrelada a uma aposta no poder da imaginação de trazer o possível, a ordem utópica do vir-a-ser, para dentro do real, entranhando-se em nossa linguagem e em nossas formas de ver e falar do mundo. Para isso, era fundamental o equacionamento entre a arte e a vida.[...]"
13. Refiro-me ao texto de Marthin Heidegger "Building dwelling thinking", publicado em Poetry, language, thought, nova York, Harper & Row, 1975.
( Páginas 17 e 18 )
"[...] Vista como um todo, a obra polivalente de Flávio de Carvalho nos obriga ver certas leituras de nossa história da arte. Apesar da importância dos anos 50 de uma cultura plástica e efetivamente moderna no Brasil, alguns artistas, e Flávio de Carvalho é um deles, já vinham semeando o terreno. Mais do que isso, no caso do nosso artista, abriu-se a partir de sua inquietação e criatividade um espaço de experimentação que só mais tarde iria florescer.
A relevância dada ao corpo no processo de criação - da Experiência nº 2 ao New Look - revela quanto a sua obra exige, daquele que dela se aproxime, um compromisso que ultrapasse o âmbito puramente formal. Trocando em miúdos, suas experimentações estão sempre apostando na reciprocidade entre o estético e o ético. Seja construindo, vestindo, viajando, desenhando, é vivência integral do acontecimento artístico e a reinvenção das formas de vida, psíquica e social, que estão em jogo.
Quem compreendeu corretamente o espírito libertário da poética de Flávio de Carvalho foi o modernista Menotti del Picchia. Alguns dias após o "desfile" do New Look, ele ia para a sua coluna no jornal A Gazeta e disparava: "E lá saiu mais uma vez o herói pesquisador [...] Há uma gota de sangue de Tiradentes nesse pensador libertário. É claro que o que se possa pensar cabotiniano é nele violência polêmica. Quanto mais grotesca fosse sua indumentária, mais eloqüente seria o impacto na massa. A passeata caricata de Flávio de Carvalho era uma festa consciente de revolta contra convenções que devem ser superadas. Não creio que vinguem seus modelos: Flávio é Galileu, não um Dior ou um Fath. Não é um costureiro; é um filósofo. É duro e heróico bater-se contra encruadas conveções".31
Desse modo, sua dispersão poética aponta para criação de uma potência de desconstrução de "convenções encruadas" que sistematicamente inibem o desenvolvimento de uma nova energia criativa. Há algo de uma barbárie positiva para usar os temos de Walter Benjamim, na dispersão carvalhiana. "Barbárie? Pois é. Nós a mencionamos para introduzir o conceito novo, um conceito positivo de barbárie. Pois o que traz ao bárbaro a pobreza de experiência? Ela o leva a começar do começo; a começar do novo."32 E assim é como Flávio de Carvalho: sua inquietação criativa e experimenta é atitude enquanto forma, é a disponibilização de uma energia nova, que, por mais caótica que seja, marca sempre a possibilidade de um novo começo.
Usando as tipologias poéticas criadas por João Cabral - "boi de coice" e "boi de cambão", os primeiros puxam o carro, levam-no para frente; os segundos freiam-no em uma descida -, não teria a menor dúvida em falar de Flávio de Carvalho como o mais importante boi de coice do nosso modernismo - principalmente nos anos 30, 40 e 50. Como diria anos mais tarde o artista Antônio Manuel, "Flávio de Carvalho extrapola seu tempo para encontrar gerações futuras".
Enfim, com essa leitura assistemática, bem à moda do artista, espero ter feito justiça "aos sonhos e planos ambiciosos" desse protagonista singularíssimo de nosso modernismo, que, mais do que ninguém, à sua época, soube fazer da arte um exercício experimental."
31. Criação extraída do texto deAntonio Manuel, ainda inédito, sobre o artista Flávio de Carvalho.
32. W. Benjamin, "Experiência e pobreza", em Documentos de cultura / Documentos de barbárie, org. Willi Bolle, São Paulo, Cultix, 1986.
( Pagina 46 e 47 )
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