TRECHO DO LIVRO "ARTE MODERNA"

de Giulio Carlo Argan

MARCEL DUCHAMP - NU DESCENDANT UN ESCALIER N.º 2

"Na história da arte moderna, este quadro tem uma importância similar à que, cinco anos antes, tivera Les demoiselles d`Avignon, de Picasso: põe em crise o Cubismo analítico, tal como o famoso quadro de Picasso pusera em crise os fauves. Desde o início, estudando profundamente Cézanne e os fauves, com espírito critico e não isento de tendências simbolistas heréticas, DUCHAMP declarara-se contrário a uma pintura "puramente retínica"; mais tarde, acabará por abandonar a pintura tradicional e tornar-se-á um dos protagonistas máximos do movimento dadaísta, para o qual a obra de arte ser substituída pelo puro ato estético.

Nesta data, Duchamp está em polêmica com o Cubismo analítico: recusa seu caráter estático, no qual reconhece um limite formalista. Neste quadro, introduz um elemento cinético: uma figura nua que desce as escadas individualiza as sucessivas posições, e liga-as num complexo ritmo de formas. Falou-se em analogia e provável relação com o dinamismo futurista; na verdade, são duas pesquisas diferentes. Para os futuristas ( ver Boccioni e Balla ), o movimento é velocidade, uma força física que deforma os corpos até o limite de sua elasticidade, assim relevando, no efeito, o dinamismo invisível da sua causa. Em outros termos, o movimento é uma condição objetiva que dá ao objeto em movimento uma forma diferente da do objeto imóvel. Para Duchamp, ele determina uma mudança não apenas na conformação, mas ainda na estrutura do objeto: desmembra-o, altera o tipo morfológico de seus órgãos internos, muda o seu sistema de funcionamento biológico. O postulado de Duchamp é, pois, crítico, em relação seja ao Cubismo analítico, seja ao dinamismo futurista, seja ao dinamismo visual que Delaunay opunha à decomposição analítica cubista.

O movimento de uma pessoa que desce a escada é um movimento repetitivo, mecânico, semelhante ao movimento de uma máquina. Ao executá-lo, a pessoa passa do estado de organismo vivo para o de engenho ou máquina; o funcionamento biológico se transforma em funcionamento mecânico. Movimento repetitivo é também aquele a que, numa civilização da técnica, habitua-nos a familiaridade com as máquinas; portanto, a transformação do funcionamento biológico em funcionamento tecnológico é destino que nos aguarda. É plenamente compreensível que, partindo dessa premissa, Duchamp tenha chegado a contestar in toto a cultura da sociedade moderna; é também facilmente explicável que este quadro tenha conhecido um enorme sucesso, gerando conseqüências profundas no Estados Unidos ( foi exposto, em 1931, no Armory Show, em Nova York), isto é, um país onde a passagem do ambiente natural para o ambiente tecnológico fora mais rápida e traumática do que na Europa.

Como já foi visto a propósito do Dadaísmo, o pensamento de Duchamp é muito mais complexo do que pode parecer a partir dessa obra de juventude; mais de qualquer modo, Duchamp transformou as estruturas da teoria e da operação estética, chegando a negar que a arte seja o processo em que se realiza a atividade estética. Devem-se ressaltar, desde já, dois aspectos. Primeiro, o ceticismo e a ironia radicais, como que ele se nega a ver na tecnologia industrial uma "revolução" destinada a mudar a face do mundo. Ela nada tem de sério, é apenas uma das muitas mitologias ou mitomanias recorrentes da espécie humana. A obra a que se dedica logo após Nu descendant un escalier, La marée mise à nu par ses célibataires, même ( e que já se encontra além da pintura, visto acabar todo um conjunto de elementos gráfico sobre lâminas de vidro ), estuda o ciclo continuo de funções biológicas e tecnológicas, com amplas intervenções de simbologias inconsciente e alusões humorísticas; já pode ser considerada como uma contestação total da existência humana. Segundo, a tecnologia industrial, apesar de aparente racionalismo, realiza de fato os impulsos inconscientes, os desejos inexpressos da sociedade. Por isso, o quadro se preenche de implicações simbólicas, tanto mais evidentes quanto mais desaparece a figuração. É, pois, uma espécie de magia, que envolve todas as técnicas com que o homem tem expressado sua existência profunda, desde a alquimia à linguagem e ao jogo. A importância de personalidade extremamente singular de Duchamp reside, portanto, em ter sempre avançado contra a corrente, desvendando impiedosamente o que se encontra sob as censuras repressivas da sociedade moderna.[...]"

(Página 438 à 441)


MARCEL DUCHAMP
Nu descendant un escalier nº 2, 1912-6

(Nu descendo uma escada nº 2)
aquarela, tinta, lápis e pastel sobre papel fotográfico
147 x 89 cm
Filadélfia, Museum of Art