TRECHO LIVRO "FLÁVIO DE CARVALHO"
de Luiz Camillo Osorio
Mulher morta com filho, de 1946, retoma a morbidez angustiante de algumas telas anteriores. A figura volta a ser dominada pela textura encrespada e as relações de cor intensificam esse sentimento de opressão das pessoas. O vermelho quente e abafado envolve os corpos estirados na cama. A mãe morta com filho deitado sobre seu peito já aponta para a série de desenhos mais impressionantes da história da arte brasileira: a Série trágica, em que Flávio de Carvalho pintou a mãe agonizante no leito de morte.
Desarmado diante do desfalecimento da mãe, ele toma o lápis e eterniza um momento singular de dor e de desorientação. As linhas, apesar da urgência da hora, dos rabiscos rápidos e ligeiros, transmitem serenidade. A vida parece estar se consumindo na boca entreaberta pelos suspiros de sofrimento. É como se, pelos olhos e boca da mãe morrendo, ele retratasse o próprio desaparecimento do mundo.
As palavras escritas na parte inferior de alguns desenhos - "minha mãe morrendo" - mostram uma necessidade de confirmação do que parece capaz de tornar toda a vida um absurdo: a perda da mãe como perda da nossa referência originária. Assim como as linhas, as letras tendem à invisibilidade. Esses desenhos parecem querer falar mais do velamento que da visibilidade. Se tomarmos a série como um processo, indo do primeiro ao nono, vemos que os desenhos vão sumido no papel, a linha revelando-se cada vez mais frágil. Talvez pudéssemos acrescentar um décimo desenho, que seria a própria folha em branco. A ausência, pura e simples.
Curiosidade, nenhuma pintura, por mais visceral que seja sua pincelada e explosiva a paleta, contém a violência dessa Série trágica. A hesitação da linha esboçando o sofrimento, tanto da mãe como do filho, nos atinge diretamente. Esses desenhos não representam a morte, não vemos a morte através dos olhos do artista, é ela mesma que está na nossa frente, entranhada silenciosamente no papel.
(Página 40)