MOSTRA NOVA OBJETIVIDADE BRASILEIRA
"1967 - Rio de Janeiro RJ - Por ocasião da mostra Nova Objetividade Brasileira, no MAM/RJ, realiza manifestação coletiva com parangolés, capas, poemas de Lygia Pape, com a presença de passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, do público e dos artistas Pedro Escosteguy e Rubens Gerchman"
(Fonte: Verbete de Hélio Oiticica na Enciclopédia de Artes Visuais do Projeto Itaú Cultural)
TRECHO DE "DA ADVERSIDADE VIVEMOS"
Fernando Cocchiarale
(professor de Estética da PUC-RJ, crítico de arte e curador do MAM-RJ)
"(...)No catálogo da mostra Nova Objetividade Brasileira, inaugurada em 1967, Hélio Oiticica publicou o texto Esquema Geral da Nova Objetividade que "seria a formulação de um estado da arte brasileira de vanguarda atual" e não "um movimento dogmático, esteticista (como, p. ex., o foi o Cubismo, e também outros ismos constituídos como uma 'unidade de pensamento'), mas uma "chegada", constituída de múltiplas tendências, onde a "falta de unidade de pensamento" é uma característica importante ...". Listava também as seis características desse estado geral (entre elas, tendência para o objeto face ao esgotamento do quadro, participação do espectador, tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos, criação de novas condições experimentais), reconhecendo na Antropofagia (1928) um dos passos decisivos em direção à Nova Objetividade. Traçava, então, uma genealogia preocupada, antes de tudo, com a caracterização de uma atitude brasileira de vanguarda e não com o estabelecimento de características plástico-formais típicas de nossa arte.
As profundas afinidades entre a lógica antropófaga e a do experimentalismo neoconcreto legitimaram a aproximação proposta por Oiticica : ambas privilegiavam o processo (tempo) como a garantia de uma expressão genuína, preservada dos ruídos externos de normas avalizadas pela "verdade" de princípios estéticos cujo contexto pertencia a outros sistemas teóricos ou culturais, Tanto a antropofagia quanto o experimentalismo atribuíam ao processo, à sua dinâmica própria, interna, o papel fundamental de ultrapassar e subverter limites, na invenção de alternativas estético-criativas grupais e individuais, simultaneamente comprometidas com questões da arte universal.
Essa base histórica, resultado do entrecruzamento, na Nova Objetividade, de dois momentos extremamente inventivos da produção artística do país, possibilitou a progressiva formação de um campo de ação experimental constituído pela contribuição de artistas de várias tendências e não apenas daquelas construtivistas. É importante assinalar que o experimentalismo quando pensado enquanto uma questão que possui uma dupla origem, antropófaga e neoconcreta - "exercício experimental de liberdade "- é, no Brasil, uma espécie de divisor de águas coletivo, não devendo, por isso mesmo, ser confundido com processos experimentais nascidos espontaneamente nas práticas artísticas. Questão que permitiu a configuração de uma tradição em trânsito que, sem constituir um repertório formal ou temático, vem referenciando, caso a caso, a obra de parte de algumas gerações de artistas contemporâneos brasileiros.
Suas obras, ainda que involuntariamente, participam de uma constelação que, embora muito variada visual e formalmente, configura parte considerável da história recente de nosso olhar : tomadas separadamente elas podem, até, ser remetidas às questões da arte internacional. Seu sentido essencial deve ser buscado, porém, numa cadeia de nexos especificamente brasileiros.(...)"
(Fonte: artigo publicado no site da ACD - UFRJ http://acd.ufrj.br/pacc/artelatina/fernando.html)