|
 Foto extraída do livro Flávio de Carvalho de Luiz Camillo Osorio |
|
Flávio de Carvalho a vanguarda na arte brasileira moderna |
A exposição retrospectiva de Flávio de Carvalho, realizada em 1999 no CCBB, com curadoria de Denise Mattar, foi uma oportunidade ímpar de tomarmos contato com um artista que se manteve à margem das instituições e da historiografia modernista brasileira. Na verdade, a marginalidade foi uma opção poética, um compromisso com a independência e a experimentação.
Sua atitude e sua obra confundem-se. A principal questão é se avaliar a possibilidade de uma poética disseminar-se independente dos meios tradicionais de realização das obras de arte - enquanto pintura, escultura, etc. No caso de Flávio de Carvalho, como de vários artistas de vanguarda, isto deve ser cogitado; afinal, tratava-se de redefinir, para o bem e para o mal, a própria noção de obra. É como se seus textos, projetos e experimentações disseminassem idéias criativas fundamentais para a oxigenação de um meio de arte conservador. Sua poética é um elo importante, e ainda pouco abordado, entre nosso modernismo e o experimentalismo dos anos 60 e 70.
|
Normalmente, Flávio de Carvalho é conhecido por suas atitudes irreverentes agitando as ruas de São Paulo trajando saiotes idealizados como roupas masculinas, mas creio que antes de tudo devemos conhecê-lo como pintor. Esta foi a atividade mais sistemática de sua carreira fragmentária. Suas pinturas são desde o começo dos anos 30 uma explosão cromática. "Escolho a cor predominante para iniciar o retrato e coloco-a com volúpia de formas sobre a tela", esta frase do próprio artista dá uma pista de seu modo de composição. A volúpia da cor se sobrepõe a estruturação das formas. Fica tudo dançando diante do olhar, e é uma dança um tanto macabra, vertiginosa mesmo, que provoca o nosso equilíbrio psíquico.
Herdeiro legítimo do expressionismo alemão, sua paleta é variada, porém sombria e metafórica. Suas cores e pinceladas remetem sempre a um estado de alma. A concentração no retrato revela o seu foco específico nas mazelas existenciais e psicológicas do ser humano. Há uma tensão entre figura e fundo: ora se fundem, ora se repelem. O que se percebe é que a figura nunca se acomoda, está sempre pulsando.
|
|
 Flávio de Carvalho caminhando nas ruas de São Paulo |

FLÁVIO DE CARVALHO
Retrato do prof. Pietro Maria Bardi, 1964
óleo sobre tela
MAB - FAAP
|
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Retrato de Burle Marx, 1952
óleo sobre tela
90 x 70 cm
Coleção Sérgio Fadel
|
| |

FLÁVIO DE CARVALHO
Retrato de Mário de Andrade, 1939
óleo sobre tela
Pinacoteca Municipal / Centro Cultural São Paulo
|
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Retrato de Murilo Mendes, 1951
óleo sobre tela
100 x 70 cm
Coleção Gilberto Chateaubriand
|
Encerrava a exposição uma sala com fotos documentando suas experimentações e projetos arquitetônicos não-realizados. A produção de Flávio de Carvalho, múltipla e transgressora, foge às categorizações e exige um olhar aberto que saiba se situar nesta fronteira entre linguagens, nesta condição arriscada de não se saber exatamente o que é.
O que mobilizava suas investigações poéticas já nos anos 30 era o interesse pelo que ele chamava de experiências, onde a arte passava a ter valor muito mais como um processo de criação que se disseminava no mundo, do que como produção de objetos belos. A experiência teria o intuito de perverter os mecanismos habituais de sociabilidade, criando um território de pura experimentação. Na verdade, noções tradicionais separando o artista, a arte e o público perdem sentido: a experiência quer justamente pensar novos horizontes de individuação, assumir uma subjetividade em constante mutação.
É com este espírito experimental, com esta vontade de reinventar a vida e o mundo por meio da arte, que ele realizou em 1931 sua inusitada Experiência nº2, em que desafiou uma procissão de Corpus Christi e foi quase linchado sendo salvo pela polícia. Em seguida, escreve um livro onde constrói uma teoria um tanto delirante sobre a psicologia das massas para analisar o acontecido. Neste texto, sua escrita é feita por quadros descritivos muito marcados por uma tensão psicológica que nos faz vislumbrar um roteiro cinematográfico. Em seguida, já em 1933, ele criou e montou o espetáculo teatral - Bailado do Deus Morto - que funda o que ele denominaria de Teatro da Experiência. Por ocasião da retrospectiva na FAAP em São Paulo, realizada logo depois do CCBB, houve uma montagem deste espetáculo conduzida por José Possi Neto. Mesmo acontecendo quase 60 anos depois, é de uma força impressionante. Atores negros, usando máscaras de alumínio, cantam e dançam o nascimento e morte de Deus entre os homens/animais. O conteúdo dramatúrgico primitivo/expressionista, contrasta com a cenografia meio futurista, toda de alumínio; um pano de boca às vezes é usado para projetar sombras e criar um cenário ainda mais dramático. A música é toda feita com instrumentos percussivos dando um ritmo africano, ritualístico, ao bailado. Enfim, não podia dar em outra: no dia seguinte à estréia foi fechado pela polícia criando mais um bafafá em torno do artista. Já nos anos 50, ele inventa o traje tropical - uma roupa masculina para o verão - desfilando pelo centro de São Paulo em uma performance carregada de expectativa pela mídia.

Capa do livro Experiência nº. 2, 1931
|
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Bailado do deus morto, 1933
Clube dos Artistas Modernos
São Paulo
|
Mais uma vez, um misto de escândalo e deboche veio à cena. O que seria aquele homem de quase 2 metros de altura desfilando pelas ruas com um saiote, meia-calça e chapéu de aba? Quem compreendeu corretamente o espírito destas experiências de Flávio de Carvalho, foi o modernista Menotti del Picchia. Alguns dias após o "desfile" do traje tropical, ele ia para sua coluna no jornal A Gazeta e disparava: "E lá saiu mais uma vez o herói-pesquisador (...) Há uma gota de sangue de Tiradentes nesse pensador libertário. É claro que o que se possa pensar ser cabotiniano é nele violência polêmica. Quanto mais grotesca fosse sua indumentária mais eloqüente seria o impacto na massa. A passeata caricata de Flávio de Carvalho era uma festa consciente de revolta contra convenções que devem ser superadas. Não creio que vingem seus modelos: Flávio é um Galileu, não um Dior ou um Fath. Não é um costureiro; é um filósofo. É duro e heróico bater-se contra encruadas convenções".
Sua dispersão poética aponta para a criação de uma potência de desconstrução de "convenções encruadas" que sistematicamente inibem o desenvolvimento de uma nova energia criativa. Há algo de uma barbárie positiva, para usar os termos de Walter Benjamin, na dispersão carvalhiana. "Barbárie? Pois é. Nós a mencionamos para introduzir um conceito novo, um conceito positivo de barbárie. Pois o que traz ao bárbaro a pobreza de experiência? Ela o leva a começar do começo; a começar do novo" (extraído do texto "Experiência e Pobreza"). E assim é com Flávio de Carvalho, sua inquietação criativa e experimental é atitude enquanto forma, é a disponibilização de uma energia nova, que por mais caótica que seja, marca sempre a possibilidade de um outro começo.
A "atitude" performática surge no momento em que alguns artistas radicais procuravam novos meios de expressão que fossem, por um lado, desatrelados das amarras institucionais e, por outro, contrários às normas convencionais, agredindo o senso comum e testando os limites da experimentação artística. As Performances têm sido um meio de apelar diretamente a um publico mais amplo, obrigando a audiência a rever suas noções do que seja arte e da sua relação com a cultura.

Flávio com berrante, anos 60
(Manchete Press)
|
|
Neste aspecto, mesmo não tendo uma intenção artística, a Experiência nº 2 pode ser tratada artisticamente. A interdisciplinaridade, a opção anti-institucional e a procura por brechas no cotidiano para desafiar seus parâmentros de orientação, subjazem a muitas destas práticas performáticas. Além disso, ela aponta na mesma direção assinalada anteriormente de "uma pesquisa da alma", própria à poética carvalhiana, pondo ênfase no choque entre a alma individual e a coletiva, na tensão entre o eu e o mundo. Como ele mesmo assinalara, sua atitude arrogante nada mais era que uma experimentação que buscava testar a agressividade de uma multidão religiosa e os seus limites de civilidade e tolerância.
Vemos nesta experiência um eco nietzscheano, que afirmava no Nascimento da Tragédia, que o homem "é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele - a vida", e que "só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente". Justificação estética da existência e a confluência entre arte e vida, são temas caros ao pensador alemão e ao artista paulista.
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Série trágica, I, 1947
carvão sobre papel
69,9 x 51 cm
Museu de Arte Contemporânea de São Paulo
|
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Série trágica, V, 1947
carvão sobre papel
68,4 x 51,3 cm
Museu de Arte Contemporânea da USP
|
| |

FLÁVIO DE CARVALHO
Série trágica, VII, 1947
carvão sobre papel
69,4 x 50,4 cm
Museu de Arte Contemporânea da USP
|
|

FLÁVIO DE CARVALHO
Série trágica, IX, 1947
carvão sobre papel
68,6 x 51 cm
Museu de Arte Contemporânea da USP
|
Não poderia deixar de inserir neste brevíssimo painel sua série trágica, em que o artista desenha a agonia da própria mãe no leito de morte. Nada mais sintonizado à temporalidade própria às performances e às atitudes anti-artísticas do que o traçado dissolvente que vai revelando o desaparecimento da mãe. A urgência que palpita nessa série de desenhos diz respeito à sua intenção desesperada de captar a morte, o tempo. Quem sabe o décimo desenho da série não seja o próprio papel em branco, o branco sobre branco, a tábula-rasa de Malevich, em que Hélio Oiticica vai mergulhar de corpo inteiro para encontrar e dar forma ao caos, à felicidade desesperada que pulsa à margem do sistema social brasileiro. Mas o Hélio Oiticica fica para depois.
Luiz Camillo Osorio, Agosto 2001
| |