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Duchamp - a crise da arte

(fotos extraídas do livro Marcel Duchamp: Engenheiro do Tempo Perdido)
Para além do desconforto que suscita, Duchamp (1889-1968) é o artista que mais radicalmente redefiniu o fazer artístico desde Leonardo da Vinci. Em um mundo dominado pela lógica da eficácia e da produção, ele re-inventou o ócio, separando inspiração de transpiração, valor de trabalho. Sua poética singularíssima leva adiante a definição de Leonardo de que a arte é coisa mental.
Como fiz no texto passado sobre Picasso e Matisse, gostaria de tomar um livro como norteador de nossa conversa, refiro-me a "Marcel Duchamp: Engenheiro do Tempo Perdido", de Pierre Cabanne, que apresenta uma longa entrevista com o artista dois anos antes de sua morte, em 1968. Já consagrado, vendo por toda parte sua atitude irreverente e iconoclasta transformar-se em hábito poético, ele fala, com o sarcasmo de sempre, sobre a sua trajetória. Coerente com sua obra, não há nenhuma revelação fundamental. Duchamp é um niilista que entendeu profundamente a sua (nossa) época. Sem ideologia ou moral, descrente dos grandes gestos ou das grandes causas, sua estética foi essencialmente ética. Antes de tudo, viveu e criou em nome da liberdade. Recusou todos os compromissos, da família à profissão, em nome da integridade e da coerência de sua obra e de sua vida.

MARCEL DUCHAMP
Nu descendant un escalier nº 2, 1912-6
(Nu descendo uma escada nº 2)
aquarela, tinta, lápis e pastel sobre papel fotográfico
147 x 89 cm
Filadélfia, Museum of Art
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De família culta, tendo dois irmãos mais velhos já artistas - eram ao todo seis -, ele cresceu em um ambiente apropriado e estimulante. Dos 15 aos 24 anos dedicou-se à pintura. Era um pintor bastante razoável, apesar de toda sua hesitação estilística. Sua pintura mais notável foi certamente o Nú descendo a escada que depois de rejeitado no Salão de Outono de Paris, 1911, fez enorme sucesso no Armory Show de Nova York em 1912, evento responsável pela introdução da arte moderna nos Estados Unidos. Esta receptividade foi decisiva para a vida de Duchamp, que a partir daí passou a viver entre Paris e Nova York. A saída da Europa foi na verdade a possibilidade de respirar um ar menos contaminado pela tradição. Nova York ainda era uma cidade provinciana que buscava refinar-se. Ao mesmo tempo em que a pintura francesa mergulhava no retorno à ordem pós-cubista, Duchamp tinha em Nova York um lugar ideal para desconstruir toda e qualquer ordem junto aos seus amigos dadaístas Man Ray e Picabia. Depois do sucesso no Armory Show, ele abandona a pintura. De 1913 até sua morte em 1968, Duchamp será um artista bissexto de poucas obras e muito escândalo. |
Dois trabalhos merecem destaque. Primeiro, O Grande Vidro ou A Noiva despida por seus Celibatários, mesmo, iniciado em 1915 e definitivamente inacabado em 1925, quando, por acidente, um pedaço do vidro fica rachado. A fragilidade e transparência do suporte, o aspecto mecânico das imagens, o tema erótico-delirante, e a incorporação do acaso na (ir)realização do trabalho, dão-lhe uma importância ímpar. O jogo com as palavras no título das obras também começa a entrar em cena. A sonoridade na lingua francesa de 'mesmo' (même) confunde-se com 'me ama' (m'aime). Como observou Octavio Paz, no seu livro sobre o artista intitulado "Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza", o Grande Vidro "é um enigma e, como todos os enigmas, não é algo que se contempla mas sim que se decifra". Outro trabalho, ou melhor, outra idéia estética que será introduzida por Duchamp e marcará sua obra e posteridade, é o ready-made. Transferindo objetos corriqueiros para os museus e designando-os objetos de arte, ele realiza o gesto mais radical e banalizante da arte em nosso século. |
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MARCEL DUCHAMP
A grande imagem de vidro, 1915 - 23
completo
Filadélfia, Museum of Art
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MARCEL DUCHAMP
Roda de bicicleta, 1913
ready-made, madeira e metal
altura 126 cm
Nova York, Sidney Janis Gallery
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MARCEL DUCHAMP
Fonte, 1917
ready-made, urinol invertido
altura 60 cm
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O exemplo de Sócrates, que sem jamais escrever uma única linha é considerado o pai da filosofia grega e da ética ocidental, sempre me vem à cabeça quando olho a obra de Duchamp. Sócrates ficou na história através de Platão e outros discípulos. Da mesma forma, a obra de Duchamp deve ser vista não apenas nela mesma, mas na variada descendência germinada na sua atitude anti-artística, na sua anti-obra.
Neste aspecto, visitar o Museu da Filadélfia onde se encontra a maioria de seus trabalhos, é algo paradoxal. Está tudo lá, mas não há muito o que ver, não ficamos boquiabertos, não se realiza o maravilhamento a que estamos habituados diante das grandes obras da história. Sua obra exige que o espectador se desfaça das expectativas habituais diante da pintura ou escultura. Não é pelo embate puramente estético que lidamos com seus trabalhos. Eles não apelam aos nossos sentidos, mas à nossa imaginação, exigindo mediações incomuns em se tratando de artes visuais.
É claro que não digo com isso que não haja imaginação no ato perceptivo, nem que um quadro de Rembrandt ou de Cézanne falem apenas à nossa sensibilidade. O ponto é apenas que Duchamp cria uma outra coisa que foge das categorias tradicionais e dos hábitos arraigados. Ele inventa um outro tipo de arte e simultaneamente um outro tipo de espectador. Do Renascimento até Picasso as transformações artísticas se deram no interior de uma linguagem pictórica, de uma concepção histórica da forma e do objeto artístico. Foi Duchamp e o dadaismo, que para o bem e para o mal, tomaram um outro caminho.

MARCEL DUCHAMP
L.H.O.O.Q, 1919
ready-made retificado
20 x 13 cm
Paris, coleção particular
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Na verdade, o ponto crucial do pensamento-obra de Duchamp é a separação entre arte e visão. Como observou Octavio Paz, "Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir a dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, mas transparente..." Esta comparação entre Picasso e Duchamp é pertinente. O primeiro transformou tudo em arte, enquanto Duchamp, sem transformar nada, fez com que tudo pudesse ser arte. O fato de tudo poder ser arte, não implica em que qualquer coisa seja arte. Na verdade a 'coisa' pouco importa, o artístico não quer se fixar no gesto criativo liberado por Duchamp. Até bem pouco tempo, a discussão do legado duchampiano vinha associada à morte das formas tradicionais de arte. Tudo bem, ele mesmo, ao longo da entrevista, fala algumas vezes que a pintura morreu, que não há mais sentido algum em se pegar um pincel para se fazer arte; mas não é essa a questão. Não interessa a disjuntiva - ou objeto ou pintura - como não interessam as separações cristalizadas entre forma e vida, olho e espírito. A importância de Duchamp não exclui Pollock, Stella ou Amilcar de Castro. Ela apenas inclui a possibilidade de existirem John Cage, Hélio Oiticica, Andy Warhol ou Gary Hill.
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A sua presença na história da arte moderna amplia os territórios e a natureza do fenômeno artístico. Não é à toa que na lista das inclusões acima, há um músico, como também poderia ter um dançarino, um escritor, um cineasta. O desvio de Duchamp é um desvio em direção à origem, onde as formas são indiferenciadas e o que importa é a invenção de novos sentidos para o mundo. O paradoxo é o seguinte: ninguém de bom senso deixaria de ver uma exposição de Matisse para ver uma de Duchamp, apesar de Duchamp ser mais importante para o século XX que Matisse - por favor, ser mais importante não implica, neste caso, em ser melhor! Sua obra transita na linha abissal e milimétrica que separa a banalidade da transcendência, o visível do invisível. Na verdade ela não está nos museus mas sim entranhada em nossa cultura e comportamento, inspirando constantemente nossa imaginação. |

MARCEL DUCHAMP
Porta - garrafas, 1964
66 cm de altura
Milão, Galeria Schwarz
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Luiz Camillo Osorio, Julho 2001
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