Matisse e Picasso:
conflito e diálogo



HENRY MATISSE
Retrato da Risca Verde, 1905

óleo e têmpera
40 x 32 cm

PABLO PICASSO
Os saltimbancos, 1905

óleo sobre tela
213 x 230 cm
Washington, National Gallery of Art

Uma pergunta que surge imediatamente para quem começa a ler hoje sobre Picasso e Matisse é: será que ainda há o que se dizer sobre estes dois artistas já tão discutidos? Não seria este um tema já banalizado? Mas se pegarmos um livro como o do professor de Harvard Yve-Alain Bois, intitulado justamente "Picasso e Matisse", vemos que ainda falta muito para compreendermos o legado destes dois monstros sagrados da arte moderna. O interessante neste diálogo entre Picasso e Matisse, é podermos ver o quanto dois artistas incontestavelmente geniais podem crescer a partir de uma conversa interna entre suas obras. Por mais que a genialidade exista, o artista está sempre conferindo seus trabalhos com o que está sendo feito à sua volta.

O objetivo do Professor Bois é mostrar o quanto as trajetórias de Matisse e Picasso desenvolveram-se a partir de uma replicação constante de trabalhos. Que isso acontecia no começo não é nenhuma novidade: há quem fale que Demoiselles d'Avignon, 1907, de Picasso, foi uma resposta a Le bonheur de vivre, 1905/6, de Matisse, que, por sua vez, treplicaria, em 1911, com o radicalíssimo L'atelier rouge. Mas este tipo de ação/reação, aconteceria até o final, e muito nos anos 30 e 40, quando alguns precipitados achavam que o velho Matisse teria se tornado carta fora do baralho.


PABLO PICASSO
Les Demoiselles d'Avignon, 1907

óleo sobre tela
244 x 233 cm
 

HENRY MATISSE
Le bonheur de vivre, 1906

(Alegria de Viver)
óleo sobre tela
175 x 241 cm

HENRY MATISSE
L'atelier rouge, 1911

(O Atelier Vermelho)
óleo sobre tela
181x219,1cm

Para explicar o tipo de diálogo que se estabeleceu entre os dois artistas, Yve-Alain, a partir do historiador Hubert Damish, toma o jogo de xadrez como modelo. O importante era juntar a rivalidade competitiva com uma temporalidade complexa, onde sincronia e diacronia estão combinadas. "Em qualquer momento de uma partida de xadrez, a distribuição das peças no tabuleiro pode ser considerada, indiferentemente, como o produto de uma história (a sucessão de jogadas que resultam nessa distribuição) ou como uma posição - ou seja, como um sistema - que contém todas as informações necessárias e suficientes para que o jogador que tem a vez se decida, com total conhecimento de causa". Ou seja, a obra de um artista está sempre em relação com uma história - com o que foi feito até então por outros artistas - e revelando um processo poético específico e singular. Ao olharmos esta obra sentimos que podemos apreciá-la pelo que ela é nela mesma, mas sabemos que ela pertence a uma história e cada pincelada ou gesto do artista irá incorporá-la em maior ou menor grau. Para além disso, o conhecimento das regras básicas de como as peças se movimentam no tabuleiro, são indispensáveis para quem quiser participar e acompanhar o jogo. Da mesma maneira, o espectador tem que está adaptado às regras básicas que balizam os movimentos singulares da história da arte; regras estas constantemente ampliadas e redefinidas pelos jogadores e suas negociações com a instituição de arte - que incorpora outros artistas, críticos, historiadores e o público em geral.

Mas voltemos aos nossos dois artistas. São muitas as referências que relatam a importância que um atribuía ao outro no desenvolvimento de suas respectivas obras. Vejamos primeiro Matisse: "Um dia, ao encontrar Max Jacob nos bulevares, eu lhe disse: se não fizesse o que faço, queria pintar como Picasso. Veja só, disse Max, que estranho! Picasso fez a mesma observação a seu respeito?". Já Picasso, sempre mais sintético, teria dito a Françoise Gilot: "levando tudo em consideração, só existe Matisse".


PABLO PICASSO
Jovem nua, 1909

óleo sobre tela
Saint Petersburg, Hermitage Museum
 
PABLO PICASSO
Retrato de Daniel-Henry Kahnweiler, 1910

óleo sobre tela
Chicago, Art Institute

O importante na argumentação do livro é desfazer qualquer idéia simplória de influência. Para o autor, e isto é crucial para a sua tese, os dois tinham certeza de que a presença do outro no "tabuleiro" era determinante para manterem-se ativos no processo histórico da arte moderna. Ambos, afinal, lutavam contra um mesmo adversário: a arte abstrata.

A incompreensão e a rejeição da abstração acompanhou-os desde sempre. Como observou Yve-Alain, "para eles, essa rejeição foi a permanente confirmação de que, embora com uma diferença de idade equivalente à meia geração, eles pertenciam a um mesmo mundo. Isso foi o que cimentou o sentimento que possuíam de estar cumprindo uma missão: reativar o passado e, em seguida, fornecer uma base para nossa experiência da modernidade".


HENRY MATISSE
A dança, 1910

óleo sobre tela
260 x 390 cm
Saint Petersburg, Hermitage Museum
 

Apesar deste adversário comum, o mais interessante não são as coincidências mas as diferenças poéticas no desenvolvimento das respectivas obras. Segundo Yve-Alain, "Matisse precisava da presença plena do objeto; era a presença material que despertava nele a pulsão para pintar ou desenhar (...) Ele precisava pôr em ação todo o seu aparelho perceptivo para poder 'identificar-se com' o motivo", ao contrário de Picasso, que não se preocupava com a identificação mas com a interpretação da coisa pintada, "qualquer coisa que ele pintasse, precisava vê-la como uma coisa diferente. Esse processo de transcodificação é muito aparente em seus retratos".

A partir desta diferença entre identificar-se com (Matisse) e ver como (Picasso) podemos olhar estas duas obras maiores do nosso século. Como disse o autor em uma entrevista, comentando uma afirmação de Gertrude Stein, Picasso pintava um tomate como ninguém nunca o vira antes; Matisse, por sua vez, pintava-o como nós o vemos, todavia, ele também nos faz sentir o cheiro do tomate".

Com oitenta anos nas costas, já um grande "clássico" da pintura moderna, Matisse escreve uma carta para o filho em que relata sua visita a uma exposição de Picasso: "fui até lá hoje de manhã, crayon em mão, estudar o que ele fez". Não é comum entre grandes artistas tamanha humildade. Matisse e Picasso mantiveram-se, em relação ao outro, sempre nesta posição de aprendiz. A série realizada pelo pintor espanhol - no ateliê La Californie - depois da morte de Matisse, é a certeza de um último lance desta partida e uma espécie de homenagem póstuma à rivalidade amorosa que havia entre os dois.

 
PABLO PICASSO
Retrato de Gertrude Stein, 1906

óleo sobre tela
99,6 x 81,3 cm
New York, Metropolitam Museum of Art


Pablo Picasso no Atelier La Califonie
 

Muito mais poderia ser dito, mas como o espaço é restrito, uma última observação: por mais específica que seja a abordagem, quem quiser entender melhor as motivações poéticas destes dois pintores não deve deixar de ler este livro. Mais que tudo, deve também perceber o quanto estes nomes consagrados, hoje tidos como "clássicos", lutaram contra dogmas estilísticos e regras acadêmicas para poderem se afirmar. Imaginem, Matisse era tido como fauve, selvagem! Daí a necessidade, sentida pelos grandes artistas, de terem "um outro" por perto, seja para o diálogo, seja para o conflito. Ao olharmos suas obras hoje, devemos ter em mente a exclamação de Braque para Matisse, quando saiam do ateliê de Picasso depois de verem, pela primeira vez, Demoisselle D'Avignon: aquelas mulheres beberam gasolina e estão cuspindo fogo na nossa cara. O susto é sempre o começo de tudo em arte.

Luiz Camillo Osorio, Julho de 2001