MARCEL DUCHAMP: ENGENHEIRO DO TEMPO PERDIDO

PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO

Estas entrevistas com Marcel Duchamp aconteceram em seu ateliê de Neuilly, onde reside com sua mulher, durante os seis messes que passa na França todo ano. É a primeira vez que o inventor mais fascinante e desconcertante da arte contemporânea aceitou expor-se e falar a respeito de seus atos, suas reações, seus sentimentos e suas opções de maneira tão profunda e eloqüente. [...]

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1. OITO ANOS DE EXERCÍCIOS DE NATAÇÃO

Pierre Cabanne - Marcel Duchamp, estamos em 1966, daqui a alguns meses você terá oitenta anos. Em 1915, mais de meio século atrás, você foi para os Estados Unidos. Quando olha para toda a sua vida, atrás de você, qual o seu maior motivo de satisfação?

Marcel Duchamp - Primeiro, ter tido sorte. Porque, na verdade, nunca trabalhei para sobreviver. Considero trabalhar para sobreviver um pouco imbecil do ponto de vista econômico. Espero que algum dia possamos viver sem sermos obrigados a trabalhar. Graças a minha sorte, passei pela chuva sem me molhar. Compreendi, em dado momento, que não precisava embaraçar a vida com tanto peso, tantas coisas a fazer, tais como uma esposa, filhos, uma casa de campo, um automóvel. E eu entendi tudo isso, felizmente, bem cedo. Isto me permitiu viver solteiro por um longo tempo, com as vantagens que não teria, se tivesse que enfrentar as dificuldades normais da vida. Basicamente, isto é o principal. Eu me considero, portanto, muito feliz. Nunca sofri de nenhuma doença grave, ou de melancolia, ou neurastenia. Também não conheci o esforço para produzir; a pintura não foi um escape para mim, ou um desejo imperioso de me exprimir. Nunca tive este tipo de necessidade de desenhar pela manhã, à tarde, o tempo todo, fazer croquis etc. Não posso dizer mais nada. Não tenho remorsos.

- E seu maior arrependimento?

- Não tenho nenhum, realmente, não tenho. Nada me faltou. Tive mais sorte ainda no fim de minha vida, do que no começo.

- André Breton disse que você foi o homem mais inteligente do século XX. O que é a inteligência para você?

- Era exatamente o que eu ia lhe perguntar! A palavra "inteligência" é mais elástica que se poderia inventar. Há uma forma lógica ou cartesiana de inteligência, mas acho que Breton quis dizer algo mais. Ele visava, do ponto de vista surrealista, uma forma mais livre de problema; para ele, inteligência era, de certa forma, a penetração daquilo que o homem comum acha incompreensível ou difícil de entender. Há uma espécie de explosão no significado de certas palavras: elas têm mais valor do que seu significado no dicionário. Breton e eu somos homens do mesmo tipo, há uma similaridade de visão que partilhamos, por isso eu acho que entendo sua idéia de inteligência: alargada, ampla, extensa, inflada se você quiser ...

- No sentido de que você próprio alargou, inflou, e explodiu os limites da criação, de acordo com sua própria "inteligência".

- Talvez. Mas eu tenho medo da palavra ''criação". No sentido social, ordinário, da palavra, a criação, é muito bonito, mas, no fundo, não acredito na função criativa do artista. Ele é um homem como qualquer outro. É sua ocupação fazer certas coisas, mas o homem de negócios também faz certas coisas, entende? Por outro lado, a palavra "arte" me interessa muito. Se ela vem Sânscrito, como ouvi dizer, ela significa "fazer". Agora, todo mundo faz alguma coisa, e aqueles que fazem coisas em tela, com uma moldura, são chamados artistas. Antigamente, eles eram designados por uma palavra que eu prefiro: artesãos. Somos todos artesãos na vida civil, na vida militar, e na vida artística. Quando Rubens, ou qualquer outro, precisava de azulo, ele falava à sua corporação que precisava de tantos gramas, e eles discutiam a questão de se poder dar 50 ou 60 gramas a ele, ou mais. Na verdade, eram artesãos como estes que aparecem nos antigos contratos. A palavra "artista" foi inventada quando o pintor se transformou numa personagem, primeiro na sociedade monárquica, e então na sociedade atual, onde é um homem de respeito. Ele não faz coisas para as pessoas; são as pessoas que escolhem as coisas no meio de sua produção. Em compensação, o artista é muito menos sujeito a concessões que antes, sob a monarquia.

- Breton não somente disse que você era um dos homens mais inteligentes do século como, citando suas próprias palavras, "para muitos, o mais incômodo".

- Suponho que isto quer dizer que, não seguido o estilo daquela época, incomodei muita gente, que via nisto uma oposição àquilo que eles estavam fazendo, uma rivalidade só existiu para Breton e seu grupo, porque eles se deram conta que podiam fazer alguma coisa além daquilo que estava sendo feito até aquele momento.

- Você acha que incomodou muita gente?

- Não. Não aquela época, porque eu nem mesmo tinha realmente uma vida pública. O pouco que eu tive de vida pública foi no grupo de Breton, e com todos aquele que se interessavam um pouco pelo meu trabalho. No verdadeiro sentido da palavra, nunca tive uma vida pública, mesmo porque eu nunca exibi O Vidro*. Ele ficou guardando em garagens o tempo todo.

- Era sua oposição moral que incomodava, mais que sua obra?

- Ainda aí, eu não tinha nenhuma posição. Eu fui um pouco como Gertrude Stein. Ela era considerada, dentro de um certo grupo, um escritora interessante, com coisa muito originais...

- Admito que nunca teria pensado em comparar você com Gertrude Stein...

- É uma forma de comparação entre pessoas deste período. Quero dizer com isto que existem pessoas, em todas as épocas, que não são in. Ninguém se incomoda com isso. Se eu fosse in ou não, teria sido tudo a mesma coisa. Sá agora, quarenta anos depois, que descobrimos que quarenta anos atrás aconteceram coisas que podem ter incomodado algumas pessoas mas, agora, elas não têm a mínima importância!

- Antes de entrar em detalhes, poderíamos abordar o acontecimento chave de sua vida, quer dizer, o fato de, aproximadamente vinte e cinco anos de pintura, você tê-la abandonando tão bruscamente. Gostaria que você explicasse essa ruptura.

- Ela veio de muitas coisas. Primeiro, o contato cotidiano com os artistas, o fato de viver com os artistas, de se falar com os artistas me desagradava muito. Há um iniciante em 1912 que me deixou meio "alterado", se posso assim dizer; quando trouxe o Nu Descendo uma Escada para os independentes, e me pediram para retira-lo antes da abertura. No grupo mais avançado da época, havia pessoas com escrúpulos incríveis, eles mostravam uma espécie de medo! Pessoas como Gleizes, que era, mesmo assim, extremamente inteligente, acharam que o Nu não tinha a ver com a linha que já haviam previstos. O Cubismo não tinha dois ou três anos existência, e eles já tinham uma linha de conduta absolutamente clara, estabelecida, prevendo tudo o que deveria acontecer. Eu achei muito ingênuo. Isso me esfriou a tal ponto que, como reação contra tal comportamento, da parte de artista que eu acreditava livres, arrumei um emprego. Tornei-me bibliotecário na Biblioteca Sainte-Geneviève em Paris.

Tomei essa decisão para me afastar de um certo meio, de uma certa atitude, para ter uma consciência tranqüila, e também para ganhar minha vida. Eu tinha vinte e cinco anos, e me diziam que se tinha que ganhar a vida, e eu acreditava nisso. Então veio a guerra, que transformou tudo, e parti para os Estados Unidos.

Fiquei oito anos trabalhando em O Grande Vidro, fazendo outras coisas paralelamente, mas já havia abandonado a tela e o quadro. Eu já tinha uma espécie de aversão por eles, não porque houvesse muitas telas montadas em quadros, mas porque não era, a meu ver, necessariamente, um meio de me exprimir. O Vidro me salvou graças a sua transferência.

Quando você faz um quadro, mesmo abstrato, há sempre uma espécie de necessidade de preenchimento forçado. Eu me perguntava por quê. Sempre me coloquei diante do "por quê", e da interrogação vem a dúvida, dúvida de todo. Cheguei a duvidar tanto, que em1923 eu disse: "Bom, está indo bem!" Não abandonei tudo de um dia para o outro, ao contrário. Voltei para a França, da América, deixando O Grande Vidro inacabado. Quando retornei, muitas coisas haviam se passado. Casei-me em 1927, acho; a vida começava a melhorar. Eu havia trabalhado anos numa coisa que, voluntariamente, desejava que fosse executada a partir dos planos precisos; mas, apesar disso, não queria, e talvez por isso tenha trabalhando tanto tempo, que ela fosse a expressão de alguma espécie de vida interior. Infelizmente, com o tempo, perdi todo o entusiasmo na execução; não me interessava mais, não tinha mais a ver comigo. Então, me cansei, e parei, mas sem nenhum choque, sem uma decisão brusca; nem pensei nisso.

- Foi como uma espécie de recusa progressiva aos meios tradicionais.

- Foi isso.

- Constatei uma coisa: primeiro, o que não é novo, sua paixão pelo xadrez...

- Não é muito séria, mas existe.

- Também notei que esta paixão era especialmente grande quando você não estava pintando.

- É verdade.

- Então, imaginei se, durante este períodos, os gestos dirigindo os movimentos dos peões no espaço não suscitaram criações - sim, eu sei que você não gosta desta palavra - imaginárias que, a seus olhos, tinham tanto valor quanto as criações reais de seus quadrados e, ainda, estabeleciam uma nova função plástica.

- De certa maneira, sim. Uma partida de xadrez é uma coisa visual e plástica, e se não é geométrica no sentido estático da palavra, é mecânica, desde de que se move; é um desenho, é uma realidade mecânica. As peças não são belas por elas mesmas, assim como a forma de fogo, mas o que é belo - se a palavra "belo" pode ser usada - é o movimento. Então, é uma mecânica, no sentido, por exemplo, de um Calder. No xadrez, existem, sem dúvida, coisas extremamente belas no domínio do movimento, mas não domínio visual. Imaginar o movimento ou o gesto é que faz a beleza neste caso. Está completamente dentro da massa cinzenta.

- Em suma, há no xadrez um jogo de formas gratuito que se opõe ao jogo de formas funcional da pintura.

- Sim, totalmente. Apesar do jogo não ser tão gratuito; existe escolha...

- Mas sem nenhum propósito.

- Não. Nenhum propósito social. Isso é o mais importante.

- O xadrez é a obra de arte ideal?

- Poderia ser. Acrescente-se que o meio dos jogadores de xadrez é mais simpático que o dos artistas. Estes são completamente confusos, completamente cegos, usam viseira-de-burro. São loucos de certa natureza, como se espera que eles sejam; mas não o são, em geral. Isso foi provavelmente o que mais me interessou. Eu estive muito ligado ao xadrez por quarenta ou quarenta e cinco anos, depois, meu entusiasmo diminuiu.

(Página 23 à 29)

* Referência a sua obra principal, O grade livro (Lá Mariée mise à nu par les célibataires, même - Le Grand Verre) (N. do T.)

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