TRECHO DO LIVRO "DADA: ARTE E ANTIARTE"
Hans Richter
[...] O grande quadro do livro La Mariée Mise A Nue Par Ses Célibataïres, même, considerado a obra pricipal de Duchamp, foi iniciado no seu ateliê na Upper Broadway, em Nova York, e terminado lá mesmo por volta de 1918. A fim de conferir determinada qualidade pictórica a uma parte do trabalho, ele deixou que a poeira de Nova York se depositasse nele. Quem conhece Nova York, sabe o que isso significa. Durante um ano e meio o enorme vidro repousou no ateliê sobre cavaletes de madeira, de forma que a poesia que penetrava pela janela voltada para o Broadway se assentou sobre o vidro. Depois desse tempo, Duchamp limpou cuidadosamente o vidro (após Man Ray tê-lo fotografado)... excetuando os cones, sobre os quais reteve a poeira com um fixador. Dessa maneira, estas partes do quadro adquiriram uma coloração ligeiramente amarelada e um matiz deliberado, que se distinguia do resto do quadro de vidro. Neste trabalho, ele de forma nenhuma é o a- ou antiartista e sim pintor que joga com acaso, muito embora recorra a artifícios incomuns. Contudo, mais significativos do que este truque técnicos são a extraordinária concentração de Duchamp na "correção" matemática das formas e figuras do seu trabalho, os cálculos complicados que realizou, e o desejo de fazer com que estes cálculos contribuísse para o sentido propriamente dito de sua obra de arte (que, por sua natureza, se encontra no nível emocional).
Estes esforços são comprovados por uma pequena série de desenhos nos quais Duchamp calculou cada detalhe, como se trabalhasse da construção de um avião ou de uma cápsula espacial. Neste caso, não é o acaso, e sim o antiacaso que desempenha o papel de musa: a vontade intelectual que faz cálculo de medição. O elemento mensurável é apresentado como única realidade em um mundo de valores éticos.
Quando Duchamp finalmente considerou o quadro de vidro concluído, ele foi transportado para Brooklin, para uma exposição. Durante este transporte, o vidro sofreu rachaduras, de modo que fissuras finas se espalharam pelas figuras, como uma parte, com uma rede. De acordo com o mito, Duchamp tinha visto esta fendas em sonhos! (Pela sua vida, sua experiência e sua aparência, Duchamp é um formador de mitos ideal.) Fato é que ele reconheceu o acaso que presidiu a essas rachaduras, e em 1923 declarou a obra "concluída", tendo como derradeiro refinamento estas linhas gretadas no vidro. O trabalho constitui uma espécie de canto de cisne do artista Duchamp!
Porque a partir de 1921(ou 1923?) ele abandonou a arte, e decidiu-se ao jogo de xadrez."[...]
(Páginas 120 a 122)