TRECHO DO LIVRO "DADA: ARTE E ANTIARTE"
Hans Richter
M.D ou o antiacaso no ready-made
[ ...]Em Duchamp não existem tais "franquezas". Ele joga xadrez sobre o tabuleiro como na vida, um jogo no qual as combinações o estimulam, sem levá-lo supor que exista um sentido atrás de tudo, que pudesse obriga-lo a acreditar em alguma coisa.
Cravan, pela maneira com se suicidou, tirou as conseqüências lógicas resultantes de um total desprezo do mundo. Tal coerência convence. Marcel Duchamp tirou outra conseqüências, ele encontrou uma forma de compromisso sublime, que não torna o suicídio obrigatório, e evita o auto-sacrifício.
Duchamp adota uma postura que considera a vida uma triste piada, um absurdo indecifrável, que mal compensa investigar. O absurdo total da vida, o caráter fortuito deste mundo desprovido de todos os valores evidenciam-se à sua mente superior, e oferecem-se como derradeira conseqüência do Cogito ergo sum de Descartes. No total desprendimento do homem frente aos acontecimentos do mundo ao redor, na posição segura do ego congito, ele se transportou para um além, sem se matar.
Enquanto Cravan se consumiu, absurdamente ou de acordo com algum sentido, no caso de Marcel Duchamp uma constituição mental especial lhe permitiu preserva-se (até a idade de 150 anos) (sic). O ponto arquimediano, por ele encontrado, situado fora da luta pela vida e do sentido, o distanciamento de preconceitos ideológicos (excetuando-se, talvez, a vaidade) fizeram com que na vida à sua volta apenas visse uma comicidade involuntária e triste. Esta comicidade permitiu-lhe sorrir, desprezar, fazer glosas irônicas, comprometer sem piedade, ou estender uma mão soberanamente inteligente. A vaidade, que reconhece como característica humana ("caso contrário nós nos suicidaríamos"), é a sua única concessão. O cogito ergo sum é uma máxima que precisaria ter sido inventada especialmente para ele. Ela está tão viva em Duchamp quanto no dia em que foi formulada. Mas, uma vez que ela adere o paradoxo do absoluto, ela conduz a si própria ad absurdum.
Já no início de suas carreiras, os irmãos Villon-Duchamp, Jacques Villon, o pintor, Robert Villon-Duchamp, o escultor que morreu na guerra de 1914-18, e Marcel Duchamp, haviam combinado entre si, como disse certa vez Duchamp, "introduzir um pouco de inteligência na pintura". Marcel a possuís em grande quantidade. Os caminhos pelos quais a arte estava enveredando não lhe agradavam. A arte com estilo, para quem? O filisteu? A pintura, esta "bebedeira com terebintina", uma besteira! Pensamos errado, sentimos errado, vemos as coisas de modo errada!
Em 1915, segundo me contou Man Ray, Duchamp veio de Paris para Nova York com um balão de vidro (o qual, proveniente de Paris, naturalmente continha "ares parisienses"), com o qual pretendia presentear o seu amigo, o colecionador de arte Walte Arensberg, e sua esposa. No mesmo ano confrontou o mundo artístico de Nova York, que em 1913 considerara o seu quadro Nu descendant un escalier ora uma "fábrica de ripas em explosão", ora uma obra-prima, com uma nova surpresa: os ready-mades. O ready-made era a dedução lógica a que Duchamp havia chegado a partir da recusa dos empreendimentos comerciais com a arte, e da incerteza quanto a um sentido da vida, de modo geral. A um público de conhecedores de arte ele mostrou: a roda de uma bicicleta, montada num banquinho, um secador de garrafas (comprada no bazar do Hotel de Ville, Paris) e um urinol.
Este ready-mades, de acordo com seu decreto, tornavam-se obra de arte, na medida em que ele lhes dava este título. "Escolhendo" este ou aquele objeto, por exemplo uma pá de carvão, ele era retirado do mundo morto das coisas insignificantes, e colocado no reino vivo das obras de arte que deviam ser particularmente observadas: o olhar fazia com que se tornassem obras de arte!
Arp, Schwitters e Janco também compreenderam ocasionalmente esta subjetivação arbitrária do mundo dos objetos, utilizando em seus trabalhos matérias-primas do mundo ao redor, em estado natural. Nunca, porém, esta subjetivação foi formulada com uma coerência tão cartesiana.
Quem ainda pretendesse inferir algum prazer estético destes ready-mades (que Duchamp não apenas não planejava, como recusava), assim, por exemplo, admirando ritmo do secador de garrafas ou elegância leve da roda, este estacava e renunciava a tais considerações diante do urinol. E se ainda insistisse nisso? "Então deixem-no" - era a opinião de Duchamp. Como membro do júri da I Exposição dos Indépendants em Nova York, Duchamp inscreveu-se com a sua Fonte (urinol), assinando-a com o nome R. Mutt (uma firma que produzia artigos sanitários). Indignados, os co-jurados recusaram este objeto indecente, mas Duchamp insistiu que fosse aceito. Afinal, era uma exposição dos independentes! Não conseguindo, como era previsível, impor-se nem com sua voz, nem com sua Fonte, ele renunciou ostensivamente ao cargo. Entrementes, a Fonte há muito tornara-se a peça principal de numerosas exposições, e no final dos anos cinqüenta, na exposição dadá de Sidney Janais, em Nova York, ela se encontrava acima da porta de entrada que dá acesso ao grande salão, pelo qual tinham passado todos os visitantes... cheia de gerânios. Nem sombra de algum choque.
Marcel Duchamp: ready-mades
"Já em 1913 tive a feliz idéia de montar a roda de uma bicicleta em cima de um banquinho de cozinha, e de observá-la girando.
Alguns meses mais tarde comprei uma reprodução barata de uma paisagem hibernal, à qual dei o nome de Pharmarcy (farmácia), após ter acrescentado dois pequenos pontos no horizonte, vermelho e um amarelo.
Em 1915, em Nova York, comprei um pá de neve numa loja de ferramentas, e sobre ela escrevi In advance of a broken arm (Prevenindo um abraço quebrado).
Por esta época, aproximadamente, ocorreu-me a palavra ready-made para designar este tipo de manifestação.
Desejo ressaltar que a escolha destes ready-mades nunca foi ditada por consideração de prazer estético. A escolha baseava-se numa reação de diferença visual, independentemente de bom ou mal gosto... na realidade um estado de anestesia total (ausência de consciência).
Uma característica importante residia na brevidade das frases com as quais ocasionalmente intitulava os meus ready-mades. Com tais frase eu tinha o objetivo de conduzir os pensamentos do telespectador para outras regiões, mais verbais (literárias).
Às vezes eu acrescentava algum detalhe gráfico, com o qual satisfazia o prazer que me proporcionam as aliterações - o produto chamava-se, então, Ready-made Aided (Ready-made fomentado ou fabricado). Em outros momentos, a fim de tornar evidente a incompatibilidade e a contradição entre arte e ready-made, eu inventava um Reciprocal Ready-made: um Rembrandt sob forma de tábua de passar roupa.
Logo percebi o perigo que residia numa repetição indiscriminada destas formas de expressão, e decidi reduzir a produção de ready-mades a uma pequena quantidade por ano. Naquela época compreendi que para o espectador, mais do que até mesmo para o artista, a arte constitui um meio de induzir ao vício (como o ópio), e eu queria evitar que meus ready-mades passassem por tal processo de conspurcação.
Outro aspecto dos ready-mades é a sua falta de originalidade... A reprodução de um ready-made transmite a mesma mensagem... de fato, quase nenhum dos ready-mades que existem hoje é um 'original' na acepção convencional do termo.
Uma palavra final com relação a este círculo vicioso: como todos os tubos de tinta usados pelo artista são produtos industriais 'ready-made', é forçoso concluir que todos os quadros são 'ready-made confeccionados'." (Marcel Duchamp)
Após a Fonte e a saída de Duchamp do Comité dos Indépendants em Nova York, há ainda a registrar uma série de objetos misteriosos que Marcel Duchamp acrescentou ao mundo que o cercava. Em 1919, a Mona Lisa de bigode, além de um cheque totalmente manuscrito, destinado ao pagamento de seu dentista (um cheque que este, com muita razão, mandou emoldurar), e uma janela fechada intitulada A batalha em Austerlitz. Em Why not sneeze, ele mostrou uma gaiola de ferro, recheada de mármore sob forma de cubinhos de açúcar. Duchamp utilizou-se freqüêntemente de Rrose Sélavy (c'est la vie) para s sua demonstrações poéticas: "Rrose Sélavy et moi esquivons les ecchymoses des Esquimaux aux mots exquis."
(Página 114 à 118)