"MARCEL DUCHAMP" OU O CASTELO DA PUREZA
SENS: ON PEUT VOIR REGARDER.PEUT-ON ENTENDRE ÉCOUTER, SENTIR? M.D.
Talvez os dois pintores que maior influência exerceram em nosso século sejam Pablo Picasso e Marcel Duchamp. O primeiro pelas obras, o segundo por uma obra que é a própria negação da moderna noção de obra. As mudanças de Picasso - seria mais exato dizer: suas metamorfoses - não cessaram de inatividade de Duchamp não é menos surpreendente e, à sua maneira, não menos fecunda. As criações do grande espanhol foram, simultaneamente, encarnações e profecias das mutações que nossa época sofreu, desde o fim do Impressionismo até a Segunda Guerra Mundial. Encarnações: em suas telas e em seus objetos o espírito moderno se torna visível e palpável; profecias: em suas mudanças nosso tempo só se afirma para negar-se e só se nega para inventar-se e ir mais além de si. Não um precipitado de tempo puro, não as cristalizações de Klee, Kandisnky ou Braque, mas o próprio tempo, sua urgência brutal, a iminência imediata do agora. Desde o princípio retardamento. Em uma das notas da célebre Caixa Verde anota: "dizer retarde em lugar de pintura ou quadro; pintura sobre vidro se converte em retarde em vidro - mas retarde em vidro não quer dizer pintura sobre vidro...". Esta frase nos deixa vislumbrar o sentido de sua ação: é a crítica da pintura. Picasso é o que vai passar e o que está passando, o vindouro e o arcaico, o remoto e o próximo. A velocidade lhe permite estar aqui e ali, ser de todos os séculos sem deixar de ser do instante. Mais que os movimentos da pintura no século XX é o movimento feito pintura. Pinta depressa e sobretudo a pressa pinta com seus pincéis: o tempo- pintor. Os quadros de Duchamp são a presentificação do movimento: a análise, a decomposição e o reverso da velocidade. As figurações de Picasso atravessam velozmente o espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp o espaço caminha, se incorpora e, tornado máquina filosófica e hilariante, refuta o movimento com o retarde, o retarde com a ironia. Os quadros do primeiro são imagens; os do segundo, uma reflexão sobre a imagem.
Picasso é um artista de fecundidade inesgotável e ininterrupta; as telas do outro não chegam a uma meia centena e foram executadas em menos de dez anos: Duchapm abandonou a pintura propriamente dita quando tinha apenas vinte e cinco anos. Certo, prosseguiu "pintando" por outros dez anos mas tudo que fez a partir de 1913 é parte de sua tentativa de substituir a "pintura-pintura" pela "pintura-idéia". Esta negação da pintura que ele chama olfativa (por seu odor a terebentina) e retiniana (puramente visual) foi o começo de sua verdadeira obra. Uma obra sem obras: não há quadros a não ser o Grande Vidro ( o grande retarde), os ready- made, alguns gestos e um grande silêncio. Á obra de Picasso recorda a de seu compatriota Lope de Veja e, na realidade, ao falar dela, teríamos que usar o plural: as obras. Tudo que Duchamp fez concentra no Grande Vidro, que foi definitivamente inacabado em 1923. Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir as dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, é transparente... Este apressado paralelo não é uma mesquinha comparação. Ambos artistas, como todos os que o são de verdade, sem excluir os chamados artistas menores, são incomparáveis. Associei seus nomes porque me parece que, cada um à sua maneira, definem a nossa época: o primeiro por suas afirmações e seus achados; o segundo por suas negações e explorações. Ignoro se são os "melhores" pintores desde meio século. Não sei o que quer dizer a palavra "melhor"aplicada a um artista. O caso da Duchamp - com os de Max Ernst, Klee, Chirico, Kandinsky e outros poucos - me apaixona não por ser "melhor" mas por ser único. Esta última palavra é a que lhe convém e o define.
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