A ÚNICA ARTE QUE PRESTA É A ARTE ANORMAL
Flávio de Carvalho
Diário de S. Paulo. São Paulo, 24 Set. 1936
(Extraído do catálogo Flávio de Cavalho: 100 anos de um revolucionário româtico)
"O belo é um bicho feio - O narcisismo do espírito médio - O gênio de Spinoza - Pureza e impureza- O senso comum; uma manifestação psiconevrótica da história - O selvagem de Jean Jacques Rousseau - O pintor do rei da Inglaterra - O sine qua non e abaixo o dogma!
O século XX é o século das grandes descobertas psicológicas. O homem começa a se conhecer a si mesmo, começa a compreender os motivos do seu comportamento, por que eles escolhe esta ou aquela diretriz na vida. A psicologia penetrando atrás da morbidez humana vê alguma coisa do espantoso quadro traumático que movimenta o espetáculo do mundo consciente. E entre outras coisas observa-se e induz-se que [:] o que o homem tem de mais profundo e interessante, ou pertence aos domínios puros do pensamento [,] ou provém desse mundo mórbido escondido. A arte na sua forma limite (tomando o sentido matemático de limite) é a que mais necessita dessa Morbidez da alma e dessa Pureza do pensamento; intuitiva ou especulativa, ela tende sempre a essas direções, e pode-se concluir com segurança que a arte que não atinge os domínios da Morbidez e da Pureza mal merece o nome de arte.
A arte medíocre
Uma das poucas funções da arte medíocre é fornecer contraste e ponto de comparação para a arte emotiva e a arte mentalista [,] e também para receber os momentos de regressão da alma cansada - além naturalmente do interesse etnográfico, histórico, e, está claro, como material de estudo para a mediocridade.
A arte medíocre tem o seu papel definido na sociedade: fornecer contraste, e ninguém pensando com seriedade deseja eliminar a arte medíocre ou mesmo o homem medíocre. Ambos são necessários para idéia de movimento e de vida.
A arte "chapa", a arte que agrada ao espírito médio e que vende com facilidade, é sempre ruim. Um dos melhores testes para determinar se um artista é ruim ou bom é observar se ele está ou não vendendo os seus quadros fatores de influência secundária, aquele que mais vende e que mais cai no agrado do público é quase sempre o pior e o mais medíocre de todos. (Isto naturalmente não quer dizer que todos os artistas que não vendem os seus quadros sejam bons artistas e nem que todos os que vendem sejam medíocres).
O elogio das classes médias
Por que esta peculiaridade na seleção natural? Conquanto o problema seja complexo a resposta é, em linhas gerais, o que pode haver de simples: nos momentos de saudade o espírito médio da massa é narcisista e escolhe uma imagem de si mesmo. Escolhe uma representação pictórica que envolve a sua própria mediocridade, o seu característico médio de massa. A pintura que mais agrada são as representações da Santa Família, porque preliminarmente o gesto de santificar a família é um elogio que as classes médias fazem a si mesmas [;] e em segundo lugar as cenas da família, que representam o amor e a procriação, cenas eminentemente sexuais, são as que estão mais ao alcance e ao gosto do temperamento médio das massas. (ver o cap. "Madona e Bambino" no meu livro à sair Os ossos do mundo, editado pela Ariel Editora Ltda., do Rio). A feição mórbida, sonhadora e profunda da arte não está ao alcance do temperamento médio da massa, temperamento das classes médias [;] e a pureza filosófica das manifestações de arte abstrata, ainda menos.
O homem médio e bem equilibrado é capaz de apreender o que a natureza tem mais profundo, a sua estabilidade é o seu grande tabu - a vida escoa turbulenta e sugestiva a seus pés, mas não é absolutamente percebida.
O que acontece com as classes médias acontece também com as outras classes: cada classe modela em si mesma a idéia do belo, se acha a si mesma bela. Não nos esquecemos das intermináveis discussões sobre arte proletária: os teóricos proletários acham que só eles são belos, e só gostam da arte que contém representações de si mesmo.
O gênio do casto aristocrata do intelecto, Spinosa (1674), na sua concepção do termo "idéia" (ver Ética, II, 178) envolvendo "ideatum", o ego-modelo como fonte inspiradora da opinião, percebia intuitivamente [,] há três séculos atrás [,] o que a psicologia hoje não deve mais duvidar. No meu livro "Experiência nº 2" estudei demoradamente o comportamento egocêntrico do homem.
Como tentativa, proponho o seguinte mecanismo: uma personagem, permanecendo em perfeito equilíbrio, jamais pode alcançar as profundezas da alma ou as alturas do pensamento. Jamais toca nas orlas impuro e do puro. A idéia de equilíbrio em si seria uma proibição, pois para alcançar essas zonas é necessária um deslocamento libidinoso considerável [,] com formações de fobias e manias. Nenhum Deus do Olimpo seria viciado em ilusões a ponto de atingir um estado de Maya ou de Alê envolvido Impureza ou Pureza. Que afrodisíaco poderoso operaria semelhante milagre no homem medíocre!!
O culto ao senso comum e o bicho feio
Os conhecimentos atuais mostram que o culto ao senso comum e ao bom senso, nada mais foi senão uma manifestação físico nevrótica da própria história, um estado de nervosismo que passou, um modo de defesa. A História enfraquecida pelos perigos da polêmica, se coloca a si mesma em segurança. Mas [esse estado] já passou, o homem com senso comum, o homem médio, não pode mais clamar para si o mundo.
O belo ingênuo de Diderot, a ética simplista de Conte e estética inocente dos filósofos do século XVIII e do século XIX, são como o selvagem de salão de Jean Jacques Rousseau, pequenos brinquedos do pensamento que se ajeitam à predileção de um humor que passava. Nada tinham a ver com o drama do trágico e do chistoso da vida real.
O problema estético hoje não é mais a abstração lírica cheia de impasses lógicos, mas pertence em grande parte aos domínios da psicopatologia [,] e de uma ciência que ainda está por se criar e que poderia bem se chamar psicoetnografia. O BELO HOJE TORNOU-SE UMA COISA ESPINHOSA, UM BICHO FEIO E DIFÍCIL DE AMANSAR.
As classes médias, possuindo sensibilidade média, nos raros momentos de romantismo deixam de lado o material que pertence a uma percepção mais apurada e mais sensível, só escolhem aquilo que representa em alguma forma a si mesma, isto é, coisas da percepção média e banal. Como por exemplo, a popular virgindade, pacata a inútil do tipo De Lazio, pintor do rei da Inglaterra e mestre absoluto da "confeitaria", ou os "morangos com creme" de um conhecido retratista português que andou em moda por aqui (um Sr. Medina, creio).
O espírito médio deixa, portanto, de lado a única arte que contém valores artísticos profundos: a ARTE ANORMAL, bem a arte sub-normal, as únicas que prestam porque contém o que o homem possui de demoníaco, mórbido e sublime, contém o que há de raro, burlesco, chistoso e filósofo no pensamento, alguma coisa da essência da vida.
A arte dos loucos é tão interessante porque é um gráfico às vezes restrições da anomalia do louco, é profundo e é forte.
A arte praticada pelas crianças é também de grande superioridade artística quando não sofre a influência do mestre. Evidentemente só as crianças muito pequenas podem praticar essa arte sublime, pois geralmente a influência nociva do professor, a opinião dos maiores, tutores, pais, etc., com os seus preconceitos mundanos estragam a singeleza e a força da arte infantil. As escolas de belas artes são às vezes focos de embrutecimento. Os professores são muitas vezes indivíduos déspotas, cheios de sua personalidade, que procuram aniquilar e esmagar o que a criança tem de espontâneo e de interessante e impor as sua personalidade à criança. O desabrochar da emoção parece ser coisa tumultuosa e a beleza reside na força dessa emoção e na magnitude do tumulto, porque assim sendo caracteriza mais o problema em foco. Parece que a forma anárquica a arte, arte sem mestre, é a que mais valor pictórico contém. Nesse ponto o governo do México deve ser elogiado pela sua inteligente atitude com respeito ao ensino da arte: vi trabalhos de crianças mexicanas, sem a influência do professor, que igualam em valor artístico e em força de concepção aos maiores mestres da pintura do mundo."
(páginas 71 à 73)
O DRAMA DA ARTE CONTEMPORÂNEA
(1º Carta aberta ao crítico Geraldo Ferraz)
Flávio de Carvalho
Diário de S. Paulo. São Paulo, 20 jun. 1937
(Extraído do catálogo Flávio de Cavalho: 100 anos de um revolucionário româtico)
"As forças que plasmam e orientam o século levaram a arte contemporânea a ser uma expressão do próprio século, fazendo desta uma das forças sugestivas e orientadoras dentro da história. O século XX trouxe consigo o início das grandes descobertas psicológica e mostrou uma visão tentadora de um produto do cérebro: o uso da máquina e das noções de eficiência. Nunca foi ela tão cerebral e tão friamente dialética, isto é, tão oposta ao individualismo impulsivo da tendência psicológica.
As manifestações plásticas do século XX apontam para um novo modo de sentir as coisas. Os artistas, seguindo o ritmo geral do século, se tornaram mais sensíveis [:] era uma necessidade de segurança provocada pelo próprio ritmo acelerado. O problema não é mais um problema de percepção visual das coisas, sistema máquina fotográfica, mas trata-se de uma percepção psicológica e uma percepção cerebral. Na percepção psicológica o artista procura desvendar o conteúdo dentro da forma, aquilo que está dentro, e ele [se] depara então com um mundo estranho e se extasia ante as feridas ancestrais desse mundo. Na percepção cerebral o artista torna-se um calculista frio, um geômetra e um matemático inconsciente, ele lida com forças e noções de equilíbrio em cores e formas; ele é um pensador da arte e não um emotivo.
Ambas as tendências representam a síntese das grandes aspirações dos povos do século. A arte é sempre em algum modo a síntese das grandes aspirações dos povos e das necessidades da história, é um gráfico da história como ser vivo (Ver o capitulo "Madona e Bambino" no meu livro Os nossos do mundo, à venda em todas as livrarias).
As duas tendências são opostas em natureza. A tendência psicológica revela: feridas ensangüentadas de um mundo interior, imundície ancestral e sagacidade de um demoníaco, calma azulada de aspecto ortopédico de uma arqueologia. A tendência cerebral ou abstrata revela fechamento das feridas, purificação do mundo pelo cérebro, elevação do indivíduo acima da imundície.
Ambas as tendências fogem da semelhança fotográfica com a natureza e encontramos nas seguintes palavras do diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, Sr. Alfred H. Barr Jr. (New York Times, 29 nov. 36) uma verdadeira fonte de inspiração. O grande crítico e compreendedor de arte contemporânea falando sobre arte abstrata diz: - "baseada na suposição de que uma obra de arte, um pintura por exemplo, vale a pena ser olhada, primeiramente porque apresenta uma composição ou organização de cor, linha, luz e sombra. A parecença com os objetos naturais conquanto necessariamente não destrua esses valores estéticos, pode facilmente adulterar a pureza. Portanto, como a parecença com a natureza é no melhor dos casos supérflua e no pior dispersiva, ela pode perfeitamente ser eliminada".
Esta revolução no pensamento estético, iniciado em fins do século XIX, invadiu o mundo pensante, os museus, as escolas de belas, as revistas, o cinema, e hoje domina nas camadas mais sensíveis de artistas. A pintura, a escultura, e a arquitetura pisam hoje terrenos que nunca foram explorados e cujas possibilidades mal eram apreendidas mesmo pelos temperamentos mais sensíveis. A sugestibilidade emanada dessa grande visão de Arte Moderna é tão forte e tão cativante e tão sincronizada com o ritmo acelerado do século (ritmo este que exige para a sua preservação e defesa uma sensibilidade sempre maior) que para retroceder seria necessária amortecer anestesiando a sensibilidade já desperta ou bem atrofiar o homem já quase ereto e capaz de enxergar além do pequeno de capim verde.
Esta constatação não tem finalidades pedagógicas, não visa fazer com que todos os artistas pintem, cortem ou construam da mesma maneira, é apenas uma análise do assunto.
Quando uma pessoa é forçada a fazer uma coisa que ela não sente [,] o resultado é sempre deplorável - todo o personagem prezável é autodidata: a medida que acorda e torna-se mais sensível, movimenta-se no mundo da direção da sensibilidade desperta. É em certo modo um crime contra a civilização rufar ladainhas e dogmas religiosamente.
A arte moderna para ser forte e rigorosa, para ter valor, necessita de luta, de sofrimento e sobretudo de inimigos. E os tem naqueles que se arrastam pelos séculos anteriores e não conseguiram compreender os que vivem dentro do século, nos tipos médios de salões e de escolas de belas artes que ainda se encontram pastando."
(páginas 73 à 74)