TRECHO DO LIVRO "FLÁVIO DE CARVALHO"

de Luiz Camillo Osorio

Nesse ano, outro evento marcante para história da arte brasileira. De início sem tanta relevância artística, mas com certeza muito mais agressivo em termos culturais: a Experiência nº 2, realizada por Flávio de Carvalho. Em uma São Paulo provinciana e católica, ele resolve testar os limites de tolerância de uma religiosa ferida em seus códigos de comportamento. Durante uma procissão de Corpus Christi ele usa um vestido boné verde de veludo e caminha de forma atrevida na contramão do fluxo de fiéis. Não parece nada para época essa atitude - manter um boné á cabeça - era algo acintosamente agressivo. Resultado: nosso artista só escapou de um linchamento graças à intervenção da polícia. O conflito surgia do embate entre o corpo físico e fragmentário do artista e o corpo místico e unitário dos fiéis e seu totem.

Alguns meses depois, ele lançou um livro onde tenta compreender, como uma escrita teórica bastante selvagem, a tensão desencadeada pela sua experiência/provocação. Suas leituras de Freud, Nietzache e Frazer são conduzidas e filtradas pela experiência vivida no confronto com a procissão. Sem entrar no mérito conceitual - o que menos importa é se Flávio de Carvalho dá ou não uma explicação cabível para a psicologia das massas o sobre a natureza da experiência religiosa -, o que interessa é a ousadia de enfrentar o estabelecido, de se colocar em risco, de viver o desconhecido e o inesperado. Levando-se em conta os vários desenhos feitos para a publicação, devemos tomá-lo muito mais como livro de artista do que um texto propriamente teórico.

(Página 19)

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